Déjà vu
- Mais alguma coisa?
Se não fosse pela pergunta, eu não perceberia que tinha mudado a mulher que empacotava o pão. Também, com aquele avental bege e touca na mesma cor, qualquer mulher pareceria a mesma. E do jeito que sou atento, às vezes não diferencio nem Pelé de Xuxa. Mas a mulher da padaria era outra mesmo, e só reparei quando ela perguntou se eu queria mais alguma coisa.
- Han? Ah, não. Obrigado.
- Obrigada.
Paguei pelos pães no caixa, e na volta para casa, fiquei pensando naquela frase. “Mais alguma coisa?”, sussurrei sozinho. Raha, querer eu quero, meu bem.
*
No outro dia, trabalho. Centro da cidade. Caminhava pelas ruas, e sentia que faltava mais alguma coisa. Vi uma porta aberta num casarão em pedaços, apareceu uma perna. Diminuí o passo, estiquei o pescoço. Outra perna. Um braço. Um corpo. Meio rosto. Uma boca:
- Vem cá, vem! – e um dedo me chamando.
Cabelos loiros, olhos azuis, extremamente maquiada. Teria o quê, uns 25 anos? Passei meio assustado, sem dizer nada. Desesseis anos, ainda inocente, e o pior, sem um puto no bolso. Fui embora. Como ela, precisava ganhar o dia.
*
À noite, fiz questão de comprar o pão novamente. A mesma moça nova. Vinte e poucos anos, olhos azuis, boca… cacete! Parecia ela! Pedi os pães, me deu:
- Mais alguma coisa?
- Não… quer dizer, sim. Qual seu nome? – perguntei.
- Lúcia. – disse, e sorriu quase que ao mesmo tempo.
Devolvi o sorriso, e agradeci. Lúcia, a moça do pão. A moça que oferece mais alguma coisa. A moça que tem duas vidas.
*
No trabalho, dia seguinte, aproveitei a hora do almoço para refazer a caminhada pelo centro. Naquela mesma porta, a mesma perna. Era ela.
- Vem cá, lindo, vem cá!
Passei. Será que é ela? Voltei, com uma coragem tirada não sei de onde.
- Voltei. – e fiquei olhando bem para aquele rosto cheio de pó.
- Olá, moço. qual sua idade?
- Dezoito. – menti. Aqueles olhos, cabelos, boca, eram mesmo familiares. Mas um pouco diferentes. Decidi arriscar:
- Qual seu nome?
- Luciana.
- Ahnn.
- Por quê? Mais alguma coisa?
Conferi o bolso de trás, tudo ok. Entrei e subimos as escadas
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1 – Lendo Bukowski – Numa Fria. Deu pra perceber?
2 – Ressuscitando o blogue, para a alegria de vocês três. E a foto é minha.
3 – Tuítem-me
4 – Rafinha Bastos zoou meu jornal. Mas fui tirar satisfações.
4 – Agora eu sou jornalista! Eu e você! A melhor tira sobre o fim da exigência do diproma aqui, por Gustavo Delacorte.
5 – O Curta da Semana tem tudo a ver com o conto
6 – Minha estreia na dramaturgia, como personagem principal. De 2006.
Filed under: Auto-promoção, Ficção, conto | 4 Comments
Tags: bukowski, conto, cqc, deja vu, diploma, erótico, jornalismo, padaria






Comeu a baguete?
Quem?!
Quer dizer então que você empacotou a empacotadeira?
Valeu pelas palavras sobre os rabiscos!
Hein?
sabia que voce tava lendo bukowski!!!!
soh podia!!!
o mais depravaado….. o autor que eu amo!!
Eu, né?
Ah moço que escreve, eu passo por esses “acasos do cotidiano” vez ou outra.
E vejo um certo fantasma de 2005 voltar sem razão.
E mexer muito comigo, consequentemente.
Abraços.
Como assim, conta direito essa história