A moça que escrevia
Tinha 25 anos e, desde adolescente, tinha uma estranha mania. quando tinha dúvidas de algo que acontecia em sua vida, pegava um caderno velho e escrevia o que tinha se passado. Na maioria das vezes, esticava essas narrativas até o dia seguinte, para reforçar as atitudes que fatalmente iria tomar. O método nunca falhava: tudo acontecia como previsto e escrito.
Geralmente eram coisas triviais, como aos 17 anos, quando, no aniversário de uma grande amiga, deixou escapar uma confidência amorosa da garota – na frente do rapaz desejado. Só quando chegou em casa percebeu que algo estranho havia acontecido. Escreveu, escreveu, e descobriu o que tinha feito. “No outro dia, desculpou-se com a amiga, levando um segundo presente de aniversário”. Escrito e feito. Ou aos 22, quando decidiu, com a ajuda de tinta e papel, passar as férias em Fortaleza, apenas com a mochila como companheira.
Apesar desse hábito – talvez por causa dele -, sempre levou uma vida razoavelmente normal. Até aquele dia, aos 25. Acordada de um pesadelo, que mal conseguia lembrar, sentiu a necessidade de ir mais fundo na própria vida: estava disposta a escrever, ano a ano, os acontecimentos mais marcantes de sua existência. Compilaria em fartas páginas as mais fortes lembranças, desde as grandes glórias aos retumbantes fracassos. Não esconderia nada, mesmo o que evitara escrever antes.
Começou em casa, à noite. Viu que naquele ritmo não conseguiria dar conta, e passou a levar o caderno para o trabalho. Já não se concentrava mais no escritório, e pediu demissão para seguir seu objetivo. Parou de sair. Terminou com o namorado, que até desconfiava de outro homem na jogada. Parou de atender os telefonemas das amigas. Deixou de entrar na internet.
Depois, decidiu parar de comer. Viva só para o que viveu. Envelhecia à frente de quem a visse, se tivessem a visitado. Envelhecia a cada linha. Com caneta na mão e papéis em branco, lembrava de tudo, mas esqueceu todo o resto.
Até que chegou ao presente. Tomou consciência de si. Mas já era tarde. E fim.
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De volta, de novo. Com um texto de gaveta, esboçado ano passado.
Mais uma novidade: texto Uma vitrola que toca letras, postpagapau pra Talita, do Vinil, feito para a faculdade. Sabe como é, a gente apela quando precisa de nota.
Filed under: conto | 4 Comments
Tags: conto, Ficção





no começo eu diria que essa moça poderia ser uma grande inspiração aos que querem tomar a atitude de escrever sem esconder nada, sem pudores, escrúpulos ou falsos moralismos…
porém (tudo tem um porém), não se alimenta a alma apenas falando dela e tão-somente regredindo o que já se passou. triste fim para aqueles que se tocam tarde demais!
bonito texto!
voltou com classe!
beijos
Ná e suas interpretações pertinentes =]
curti o texto
eu joguei ha um mes todos meus diarios, desde 2001 fora.
8 anos de literatura diaria, hehe
me fez um bem…..
Vai se arrepender…
Dooorei! Achei engraçado a pausa dramática, deixando por último no parágrafo, “deixou de entrar na internet”. não qria q isso fosse tão importante em nossas vidas, mas a cada dia, toma um espaço maior…haha mas o texto nos leva a maré contrária, não exagerar no mundo virtual e viver a realidade! é isso aeeee haha
Mas quem disse que o virtual não é também o real?
Só pra te confundir
Márcio, saudações após longo tempo de (in)existência minha na rede.
Gostei muito do texto, e em meio a textos historiográficos que por vezes me drenam as inspirações, voltou com estilo.
Não pense que esqueci do seu livro…
Pois é, eu também não me esqueci