é a luz que provoca a sombra
vendo-se horizonte ou não
o bairro é vertical, pomba anda, avoa
embriaga o ar, a água e o álcool
é belo porque também tem feiúra
pode ser verde, madura
se é saudável porque um dia vai apodrecer
perder a força, o tino, o viço
um dia morrer


bolsas

16jan17

tem bagagem que pesa só depois da viagem
por isso ombros cansados
contrariados de não aguentarem
espelho mostra olhos abertos
há muito
caídos
pudera ser sono ou ressaca
lição aos quase trinta
não te faz vivo levantar muito cedo
às vezes é amigo o chão
e qualquer estação
de rádio


a tatuagem

23dez16

Daniela estaria diferente naquele segundo encontro: cabelo bem curto, sem as tranças… se ela não tivesse me alertado sobre a mudança no visual, não a reconheceria facilmente ali na catraca do metrô, um sábado à tarde, no centro da cidade. Três meses depois, eu estava muito mais tranquila do que na primeira vez. Nesse intervalo, mesmo sem termos nos visto, ficamos muito à vontade.

O cabelo curto a fazia parecer ainda menor, talvez por isso só a reconheci mesmo quando ela já estava bem perto, vindo diretamente na minha direção. Como ameaçava chover, sugeri irmos direto a meu apartamento, em vez de nos arriscarmos a um banho gelado na rua. Por mim tudo bem, ela respondeu com um sorriso cúmplice.

Poucos dias antes, Daniela havia largado emprego e faculdade, mas apesar dos tempos difíceis, mãe doente, pouca grana, parecia animada. No caminho contamos piadas e demos risadas de alguma grande polêmica da internet. Perto de casa, fomos abordadas por uma travesti que pedia dinheiro, nos chamou de Taís Araújo e Rihanna, o que ajudou a deixar as coisas ainda mais leves.

Compramos vinho num mercado, e chegamos ao apartamento. Em menos de vinte minutos estávamos na cama. Apesar da chuva lá fora, era uma tarde quente de primavera: o quarto fervia com a janela fechada. Foi ainda melhor que da primeira vez.

De volta ao sofá, Daniela contou que havia começado a fazer terapia, e também a frequentar o candomblé. Passava a mão em sua perna. A tatuagem dizia “indomável”, em letra cursiva. Perguntei se era nova, mas não, ela já estava presente em nosso encontro anterior. Mas essa aqui sim, disse, e me virou as costas.

Logo abaixo da nuca, e até o meio da coluna, os traços abstratos lembravam um quadro do Miró, como se reproduzido por uma criança. Passei os dedos pela figura, redesenhando por cima. Aquela moça pequena, aparentemente frágil, a cada momento parecia mais desconhecida. Desde o encontro no metrô me intrigava, como não havia acontecido da outra vez. Quem é Daniela? O que mais ela pode ser?

Isso foi uma piração outro dia, numa festa — ela finalmente falou. A tatuadora estava bem doida, eu também, e decidimos fazer esse desenho. Não tem significado nenhum.

A chuva havia cessado, voltamos ao quarto e abri a janela. O sol reaparecia, e um arco íris fraco dava mais cores ao céu. Ficamos um tempo observando a paisagem. Daniela se vestiu, precisava ir embora. Ela estava serena, sorria como se nos conhecêssemos há anos. Mesmo assim, não consegui captar o que traziam aqueles olhos, a boca, as tatuagens. Abri a porta e nos despedimos. Ela foi embora como uma estranha.

*conto produzido na oficina A Construção do Conto. Agradecimentos a Cadão Volpato pelas orientações


outro lugar

04dez16

ruas de mesmo nome de sempre
grandes barões desconhecidos
estranhas, irreconhecíveis
cada vez mais sozinho
esse lugar não me pertence mais
pessoas não me pertencem mais
areia escorre, descubro:
é o tempo
chuva no verão, sobre o mar
saudade, já disse um poeta
nem a praia de dezembro é a mesma
sento e espero
o quê


calendário

24nov16

apago anotações da agenda
engatando marcha à ré
rabiscos, rearranjos retroativos
marcas de onde fui e quando faltei
sempre incompleto
prato raso, caldo ralo
papo sem renda,
modo de espera
falta só parar de vez
caem compromissos como copos no colchão
pedras de gelo já derretidas
as coisas que não foram
de que servem janelas e portas escancaradas?




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