Aquela segunda, na junta militar

19jan07

 

Continuando a história do texto abaixo, na segunda tive compromisso com o Ministério da Defesa. Não, eu não vou para o Haiti. Tinha perdido a data pra jurar a bandeira ano passado e estou voltando lá para resolver o futuro da minha vida. Fui dispensado do serviço militar e faltam essas picuinhas burocráticas.

Quando a gente faz dezoito anos (falo dos homens) sempre começam a criar histórias do exército para nos assustar. Meu pai chegou a servir no Exército e o negócio não foi fácil mesmo. Mas os amigos, primos ficam com lendas para a gente ter pesadelos com esses momentos. Falam que tem que ficar pelado, ou então só de cueca, um encostado no outro, que tem que ficar em pé por horas… Já fui lá na Junta umas cinco vezes, e confesso que sempre corre um friozinho na barriga.Mas tudo não passa de lenda mesmo.

Pois bem, voltei lá na segunda, com aquela cara de tomate vermelha do sol de domingo. Tinha passado um monte de bloqueador solar, já ia saindo de casa com a cara branca. Voltei e limpei. Chegando lá, dei a documentação para a senhora (Guia Paga, o Certificado de Alistamento Militar e 1 foto 3×4, ou seja, uma foto 12). “Senta ali e espera ser chamado.”

Estava lotado de gente lá. Por acaso tinha uma menina acompanhando um cara. Idiotas, principalmente ela. Ficava rindo da cara de cada um que chegava lá. E nem se preocupava em ser discreta. Riu até do tropeço de um oficial que passou por lá. Tive que ficar uma hora sentado do lado dessa imbecil, ouvindo as risadinhas e os comentários maldosos sobre cada um que passava.

Finalmente, “Márcio Ribeiro”. Fui lá. “Assina aqui. Põe o polegar direito aqui. Não muito” – ensopei o dedo de tinta – “Marca aqui. Limpa o dedo aqui. Você vai voltar aqui no dia 15 de março, de camisa branca, calça, sapato ou tênis para jurar a bandeira e pegar seu ‘reservista’. Não falte.” Me deu o alistamento de volta, com um papel grampeado nele, que diz assim:

MINISTERIO DA DEFESA

EXÉRCITO BRASILEIRO

CMSE – 2° RM – 4° CSM – 5° DEL SM

ETC E TAL

Data, horário, local, traje, etc.

Aí vinha assim:

PERANTE À BANDEIRA NACIONAL O SENHOR PRESTARÁ O SEGUINTE COMPROMISSO, EM VOZ ALTA E CLARA.

“Dispensado da prestação do Serviço Militar Inicial, – por força de disposições legais – e consciente dos deveres – que a Constituição impõem – a todos os brasileiros, – para com o defesa Nacional, – prometo estar sempre pronto a cumprir- com as minhas obrigações militares, – inclusive a de atender a convocações de emergência – e, na esfera das minhas atribuições – a dedicar-me inteiramente – aos interesses da Pátria, cuja honra, integridade e instituições – defenderei – com sacrifício da própria vida.”

APÓS O COMPROMISSO À PÁTRIA, TODOS DEVERÃO CANTAR O HINO NACIONAL BRASILEIRO, ACOMPANHADOS PELA BANDA MUSICAL DO 2° BC.

SERÁ EXIGIDO QUE TODOS SAIBAM A LETRA E CANTAM O NOSSO HINO, EM VOZ BEM ALTA E COM TODO SENTIMENTO CÍVICO.

O JURAMENTO É UMA SOLENIDADE CÍVICO-MILITAR. CONVITE SEUS FAMILIARES.

AMA COM FÉ E ORGULHO A TERRA EM QUE NASCESTE [essa parte sublinhada, mas estamerda de blog não tem essa função]

[aqui deveria estar o nome do autor da frase “Ama com fé…”, mas o mimiógrafo da junta não deixou eu saber o nome do infeliz]

No verso dessa folha, o hino nacional, pra não ter desculpa na hora do sufoco.

Cabem aqui algumas observações, pra esse texto ficar um pouco agradável:

  1. os erros de português, que incluem pérolas como “consciente dos deveres – que a Constituição impõem” ou “Convite seus familiares”. Acho que o professor Pasquale Cipro Neto teria um infarto antes de fazer esse juramento;
  2. O “em voz alta e clara”, idéia que já me faz perder a voz, que já não é clara;
  3. Os traços meticulosamente colocados entre as orações, para o dispensado não perder o fôlego;
  4. “dedicar-me inteiramente aos interesses da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderei com o sacrifício da minha própria vida”. Não é uma opção, é um dever. Frio na barriga aumentando…
  5. O merchan da banda musical do 2° BC;
  6. A exigência de que todos saibam a letra, o que me faz lembrar da Escola São José, da 1a. à 4a. série, onde todo santo dia tínhamos que cantar o hino. Tia Zizinha olhando todo mundo. Não vou confundir o “Brasil, um sonho intenso…” com o “Brasil, de amor eterno…”;
  7. O convite à família. Até parece que vou chamar meus pais para essa solenidade cíMICO-militar.

Bem, gente, depois do dia 15 de março conto como foi esse episódio. Quem quiser, compareça. Quem gostar de mim, fique em casa.

Agora vou estudar o juramento e o hino.

Até a próxima, se eu não defender a Pátria com o sacrifício da minha própria vida.

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4 Responses to “Aquela segunda, na junta militar”

  1. ueuhe, boa sorte no estudo ;D Beijos, até o próximo post.

  2. Cara, isso eh uma merda!!!!
    qdo fui fazer tive q tirar uma foto 3×4 sem brinco.. apa puta q pariu…

    mas enfim, sed lex, dura lex

    =)

  3. Não posso deixar de comentar da foto 12, hehehe
    (adoro essas piadinhas)
    E adorei o jeito que você escreve!
    Mas não posso falar muito dessa experiência de servir o país… Já que mulher só tem a obrigação de servir a mesa (ok, piadinha sem graça e machista!! Dessas eu não gosto, rs…)
    E na minha escola, quem sempre alertava sobre trocar o “Brasil, um sonho intenso…” e “Brasil, de amor eterno” era a Tia Cláudia. E eu sempre troquei ¬¬
    Boa sorte dia 15 de março!
    Beijo =*

  4. quando eu fiz o juramento o tiozao lah fico falando altas besteiras, fazendo a gente ficar em posiçao de sentido e descansar…… tipo vivo-morto

    eu achei tudo muito mal feito, mas o que se pode fazer né, alem de reclamar pra ninguem…


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