Os Louco? Quês louco?

10fev07

(Meus últimos textos, nos dois blogues -para quem teve a pachorra de ler, lógico- têm sido meio diferentes, meio “diário das minhas férias”, meio reflexivos também. Muitos devem ter gostado, eu também gosto, mas hoje está de volta o besteirol. Bem, não é um “besteirol” mesmo, é alguma coisa engraçada, para a gente parar de pensar um pouquinho, que não faz mal a ninguém. Enquanto o narcótico tem o entorpecente, vocês têm as crônicas de um doente! Encham-se:)

grauna.jpg

Um dia desses eu vinha percebendo uma coisa interessante. Não sei se pra vocês, mas pra mim é muito interessante: o que tem de doido nessa cidade é uma loucura!

Perdão pela redundância, mas eu explico. Acho que o Macuco, onde eu moro, e o Centro, onde eu trabalho, são os bairros com o maior número de malucos de Santos. Não estou falando daquele bêbado-cambaleia-mas-não-cai, nem daquelas velhinhas que sorriem com cada criança que passa na frente delas. Falo de doido mesmo, que fala sozinho, que fala junto, que não fala, já que ninguém fala deles. Vamos ver quantos minha memória vai conseguir elencar nesse Hall da Infâmia:

  1. Tem um doido na minha rua que adora bater um papo, o Barriga. Eu não sei o nome dele -e nem quero perguntar-, mas desde que eu me lembre ele sempre foi assim. Deve ter uns quarenta e cinco, cinqüenta anos. Ele sempre tem uma deixa, tipo “O tempo está ruim”, “Essa guerra que não acaba…”. Ai de quem concorda com ele e não o conhece. A conversa não acaba nunca! O cara vai emendando uma história na outra, um absurdo maior que o outro, no final a gente não tem nem certeza de quem é o maluco. De duas, uma: ou já vai logo dispensando o cara ou viaja na maionese geral, já que ele vai acreditar em tudo mesmo. Eu recomendo a segunda opção. Mas pode não ter volta.
  2. Um aqui no Centro faz o tipo Pregador Cristão. Não tenho o visto ultimamente (não vou viajar, pra quê visto?), não sei que fim levou. Ele pegava um megafone e ficava aqui na Pça. Mauá, na Pça da República, citando passagens daquela surrada bíblia que ele segurava. Nunca vi ele falar com ninguém, também acho que ninguém iria querer ser visto falando com ele.
  3. Também não tenho visto o Sardinha, que passava na minha rua. Na verdade, o nome do senhor eu não se alembro, mas Sardinha vem dos devaneios. É que ele fica falando de um dia em que almoçou sardinha, e quer comer sardinha, só fala em sardinha. Uma loucura peculiar. Quando a gente vai falar de uma coisa totalmente diferente, um dilema existencial (ou só uma frescura mesmo!), ele filosofa: “É a vida…”. E é a Cara do Mr. Magoo.
  4. Deixolembrar… ah!, tem um que eu chamo de Desenhista. É um morador de rua (maloqueiro, para os cultos), que sempre tem um carvão ou uma pedra na mão pra fazer sua arte nas paredes, nos chãos… É negro, cabeludo, barbudo, magro que só o cão, e a única palavras que eu vejo o cara falar é: “Tenhuncigarr?”. Esse é migrante, voltimeia eu vejo num canto da cidade uma obra dele. Quem é daqui já deve ter visto um desses desenhos por aí. Ele desenha um mosaico (acho que é isso), e dentro dele escreve uma palavras, como “tribuna”, “santos”, “fasenda”, “cruseiro”, com alguns errinhos bobos de ortografia. É a licensa poética. Já vi ele (licensa poética pra mim!) Já o vi com um caderno na mão, desenhando com caneta, mas foi só umas duas vezes. No papel não deve ter graça.
  5. Outro migrante eu chamo de Binladen. É a cara do Osama! Melhor, é a barba do Osama (a cara é impossível enxergar a olho nu). O Bin Laden é outro sem-teto, que adora fumar e, digamos, não curte muito um banho. Esse adora um passeio. Fazia tempo que eu não o via quando um dia, no busão, eu achei o doido passeando na Ana Costa. Olha só!, pensei.
  6. Não podia mesquecer deste: o Mudinho, que eu vejo todo dia da semana. É que ele costuma ficar sentado na porta do prédio do escritório onde eu trabalho, do lado do Carioca. Esse é mudo MESMO, fica lendo o D.O., mostra alguma coisa pros caras que ficam ali e já o conhecem, entendem seus gestos.

Seis? Caramba, nem pensava que ia dar tantos! E olha que fiquei sabendo de outro tipo de louco: aquele que escreve blogue, que fica desesperado lendo as estatísticas, quantos visitaram, quem comentou, mas desse tipo eu ainda não conheço nenhum…

Aí me perguntam: “Ô imbecil, o que a gente vai fazer com esses malucos da cidade?” Nada. Por quê? Eles incomodam alguém, não têm liberdade pra fazer o que quiser, desde que não sejam perigosos? E ainda tem gente que olha feio. Eu rio. Obrigado pelo imbecil.

Acho que é isso. Perdão aos loucos que esqueci e citar. Ontem vi outro Pregador da Palavra no Centro com megafone, mas não estou certo de que ele seja doido. Minha mãe falou também preu não esquecer um que fica passeando delá pra cá, cabeça baixa, olhando pro chão, mas esse eu nunca vi. Talvez minha mãe esteja vendo coisas…, mas xapralá!

(Vocês devem estar se perguntando porque eu não coloco aquela música dos Mutantes, ou um vídeo do “tô doido, tô doido!”. Mas cês tão pensando que isso aqui é uma filial do YouTube? Eu não quero deixar essa página tão carregada -viram como eu penso em vocês?. E outra coisa: e se pintar outro processo tipo Cicarelli? Aposto que vai ter um monte de blogues que vão falir, só com o papel de parde aparecendo.)

E viva Henfil!

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7 Responses to “Os Louco? Quês louco?”

  1. Maravilhoso texto, parabéns pela sensibilidade e percepção das pessoas que passam todos os dias por nós nas calçadas, nas ruas e becos que nem sequer olhamos ou paramos pra conhecer a sua história ou o simples fato de notar, de mostrar a eles que eles existem, que também são pessoas como nós. Loucos? diria que não. Apenas são pessoas que vivem (de maneira trágica) a própria vida e tiram dela o que eles acham de bom, daí surgem os talentos e os dotes.
    Nas ruas há muitos bons artistas, acho que se todos soubessem disso, a Globo iria falir.

    ps: Continue escrevendo, adoro seus textos.

  2. ps: quando me referi a Globo não foi a questão deles não serem verdadeiros, mas sim com o potencial de serem reconhecidos pelo que eles são de verdade, não pelo que as pessoas acham que eles podem ser.

    rsrs

  3. “não vou viajar, pra quê visto?”
    seria eu, o número sete?? pois eu ri… =P

    poxa, aqui pelo Guarujá não há tantos loucos na rua…
    na verdade, deve haver, mas não reparei muito…
    lembro de uma “moça de rua” que fez a cobertura de uma loja de materiais para construção de motel em plena luz do dia, quando os passarinhos cantavam, com seu parceiro tão “bonito” e “bem vestido” quanto ela…
    e, pra minha eterna felicidade, calhei de passar pela avenida no momento do “ato”
    okay, fiquei traumatizada! mas Deus é bom, não me deixou ver nada… só ouvir o “êxtase da consumação” do casal desinibido.
    ainda a vejo por aqui… sempre sozinha (uma pena não ter dado certo entre os dois… tsc tsc)
    hmm, e então você me pergunta: E?
    é, desnecessário escrever isso aqui… já tô achando que o blog é meu, rs

    gostei do post… divertido! =D
    e você estudou no Objetivo né?!
    hoje tive aulas com o Lúcio e com o Paulo, conhece as figuras?

    beijo

  4. Oi Márcio..obrigada pelo com. Sou colega de classe de Pris. Já tinha passado por aqui..hj msm acho que comentamos sobre seu blog rs. Amei o título do blog, a apresentação e “procurando bem todo mundo tem..”está música é maravilhosa. Seus textos são ótimos, este em especial ficou muito bom. A loucura é genial…não somos todos loucos? dificil definir a loucura sem conhecer a normalidade, talvez nem opostos sejam… Há grandes histórias prontas para serem contadas que muitas vezes são ignoradas..e vc contou de forma magnífica, suave..Eu fiz um ensaio sobre o tema se quiser e tiver paciência de ler rs..está no blog na categoria. Mas não está muito legível, então pode entrar no outro:
    http://www.treviro.net/liu que ainda não aprendi a manusear direito, por isso mantenho os dois rs..

  5. os loucos q ficam em casa cuidadno de blogs sao os piores! cuidado com eles…… tem um tipo pior ainda! aquele q fica imaginando q todos os documentos do mundo nao sao suficientes para provar q ele existe……

    tem um crente doido no itapema tmbm, mas ele anda meio sumido

  6. Acho q pode ser tanto reportagem, quanto ensaio..nunca fui boa em classificação rs…Eu ouvir falar do “estranho no ninho” mas ainda não assisti..vou ver. Bicho de Sete Cabeças é um excelente filme, q tbm denuncia…tem até a música “bicho de sete cabeças” de Zeca Baleiro..estou querendo ler canto dos malditos q inspirou um filme. Nem comecei a ler o Alienista rs, apenas li algumas partes..mas tbm parece ser muito bom. Ah obrigada…vou lincar o seu tbm, td bem? Até o próximo..

  7. R$2,20??Q absurdo….temos alguns com este preço tbm…..ahhh


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