Obras mais lidas são de baixa qualidade, diz professora

29out07

O Dia Internacional do Livro, amanhã, será comemorado em todo o mundo, mas no Brasil, e na Baixada Santista, não há muito a festejar. O tom pessimista da afirmação parte tanto de educadores quanto de escritores.

De acordo com a coordenadora do curso de Letras da UniSantos, Elita Cezar Argamon*, foram positivas as campanhas de leitura empreendidas nos últimos anos, bem como o barateamento dos livros e a crescente edição de livros de bolso. No entanto, ela afirma que as obras mais lidas são de baixa qualidade, com pouco a acrescentar ao leitor. Na sua opinião, os livros reflexivos, enriquecedores, ainda são lidos por poucos.

Elita afirma qua ainda há uma “lacuna de leitura” no Ensino Fundamental, e o aluno passa a ser mais exigido no Ensino Médio, para a aprovação no vestibular. Apesar de a leitura por obrigação afastar muitas pessoas dos livros, a professora diz que não há alternativa, visto que ela é primordial para a formação de uma pessoa no nível superior. Para corrigir essas deficiências de ensino, é realizado há cerca de cinco anos o projeto Teia do Saber, parceria do Governo Estadual com universidades, para uma capacitação maior do professor, visando a estimular a leitura nos alunos. Os encontros ocorrem todos os sábados em alguma universidades da região.

A coordenadora também faz críticas ao que chama de “esquadrinhamento de livros”, em que o professor universitário seleciona para os alunos apenas alguns trechos das obras. Além disso, reconhece que, mesmo no curso de Letras, são poucos os alunos que se dedicam à leitura e têm a real dimensão de sua importância. “Convecê-los da importância de leitura é o nosso maior desafio”.

Outro que se diz insatisfeito com o nível de leitura no País é o poeta Valdir Alvarenga, que trabalha na área cultural da Prefeitura há 28 anos. Ele critica o ministro da Cultura Gilberto Gil, que para ele “não faz nada pelo setor”. O escritor foi um dos fundadores do Grupo Picaré, que no início da década de 80 organizava encontros de poesia marginal e independente na região, como a Semana de Literatura Independente, no Teatro Municipal. Desse grupo fazia parte o escritor Raul Christiano, eleito recentemente para a Academia Santista de Letras. Apesar de todos do Picaré seram contra a Academia, Valdir afirma que eles entenderam, até porque Raul é político. “E ele era nosso líder naquela época”, acrescentou.

Valdir Alvarenga edita a revista Mirante, com a mesma proposta do Grupo Picaré, de publicar literatura marginal e independente, na maior parte poesias de escritores da região. A publicação, trimestral, está no número 59, e na última semana completou 25 anos. A tiragem é de 60 exemplares, vendidos aos próprios amigos, e custeada por ele mesmo. A revista nunca teve patrocínio, opção do poeta. “Por isso, nunca acabou”, diz. Porém, ele vê mais dificuldades hoje para publicar a revista. O motivo é a baixa qualidade das poesias que recebe. “Hoje em dia, qualquer um é artista. Todo mundo se diz poeta, mas quando eu pergunto de Tolstoi, não sabem me responder. Não leram”.

A esperança de Valdir está nas gerações mais novas. Ele organiza espaços de leitura na Concha Acústica, nos jardins do Aquário e em outros locais, chamando a atenção das crianças. Ontem foi a vez do projeto Concha das Letras, no qual as pessoas podiam retirar livros grauitamente, ler jornais e gibis, além de poesias, nos varais dispostos na entrada da Concha Acústica. O projeto é itinerante e hoje está no Boqueirão, no encerramento da festa de aniversário do bairro.

Programação – Alguns varais organizados por Valdir Alvarenga poderão ser vistos amanhã na Sala Verde do Jardim Botânico Chico Mendes, no Bom Retiro. O Dia Internacional do Livro será celebrado no local, com recitais de poesias dos alunos da escola Waldery de Almeida, a partir das 10 horas, além de uma encenação da peça Festa no Céu, às 14 horas.

Márcio Ribeiro Garoni

(Agência Facos, 28.10.07)

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* O nome correto é Elita Cezar Argemon. E não, ela não é um digimon.

  • O título original era “Pouco a comemorar no Dia Internacional do Livro”. Teve que ser mudado para entrar no mesmo tom das outras matérias sobre a data.
  • Ninguém sabe como se precisa ter sorte nessas manhãs de sábado. Não tinha garantias nenhumas de que iria encontrar as duas fontes. A Elita estava na faculdade mesmo (só tinha ela na sala dos professores). O Valdir trabalha em uma biblioteca no Centro ( = longe da faculdade). Liguei, ele não estava. O colega dele disse que ele estaria num evento na Concha Acústica, perto do posto 4, na praia ( – longe da faculdade). Se ele não estivesse, eu é que estaria. Ferrado.
  • Ainda iria ter um encontro de poetas no posto 6 (um pouco + longe). Mas liguei antes (um homem prevenido -e azarado por natureza- vale por dois) e tinha sido cancelado.
  • Ainda liguei no Jardim Botânico (+ + longe ainda) para ver se falava com o organizador do Dia. Adivinha se ele estava lá?
  • Ainda bem que eu tinha créditos promocionais. Bendita Tim.
  • Uma figura o Valdir Alvarenga. Dava para fazer uma matéria só com ele, de roubar página. É sempre bom encontrar personagens assim.
  • Não deu para colocar na matéria, mas ele está tentando ocupar a Concha, que está abandonada, suja e com mendigos que lá dormem à noite. Está proibida de abrigar shows de música, reclamação dos turistas que alugam os apartamentos da orla. O Valdir disse que anos atrás trouxe para a Concha os Garotos Podres. Vieram punks até de São Paulo, ele pensou que seria demitido. Mas tudo correu bem, ele disse.
  • Saí de lá com cinco livros, sem desembolsar um cent. São livros doados, mas que as bibliotecas municipais já têm. Peraí, que eu vou pegar os livros…
  • … Aqui: Esaú e Jacó, do Machado; Leão-de-chácara, do João Antônio; Os Sertões, do Euclides e da Cunha; e duas coletâneas de poesias de poetas regionais da região.
  • Sinto que tenho futuro na área. É só eu tirar da cabeça temas pecaminosos. Um dia, quem sabe?
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4 Responses to “Obras mais lidas são de baixa qualidade, diz professora”

  1. Márcio, acho q foi uma das tuas melhores do Agência!! adorei, e não pelo tema em si, mas pelo modo q vc conduziu ‘a coisa’. Li naquela tacada só, sabe.
    Cada dia melhor (e o mais importante, sem pecaminosidades haha)! bjoo.

    Não sei, acho que a última foi melhor, além de não ter tido nenhum errinho. E essa ficou muito quadrada, com a professora falando, depois com o poeta falando. Fora que eu queria falar com mais gente, não gosto de matéria com pouco entrevistado.

    Mas nessa, com certeza, as entrevistas foram ótimas. Dava pra fazer uma matéria com cada entrevistado.

    P. S.: Tá querendo se redimir da pauta furada que me deu, né?

  2. Leia um bom livro, garanto que não irá se arrepender….

    E tem gente que pensa que é difícil…

  3. Ainda acredito que a leitura pode mudar o mundo!
    Só falta a galera descobrir isso…

    beijo!

    E uma pessoa é um mundo, já me disseram uma vez.

  4. 4 Babalorixá Celso Ricardo Monteiro de Oxaguián

    Prezado, saudações, na fé de Exú,orixá da comunicação!

    Também compartilho da idéia de que bons livros mudam a nossa vida e a nossa visão de mundo. Minha tradição é oral, logo,ler e escrever é algo que só faz do meu e do nosso cotidiano porque não somos burros e sabemos o que é bom. Ou não!

    Volta e meia reporto-me aos sites de busca para avaliar o nosso desempenho o que tange a comunicação e a multiplicação de informação em saúde, considerando a importância e a necessidade histórica de trabalhos como os que desenvolvemos aqui. Razão pela qual acesso esse site que não conhecia antes. O Seminário na Praia do Gonzaga, ano passado, foi um termômetro, uma preparatória para o seminário estadual da rede nacional de religiões afro-brasileiras e saúde e um laboratório. Mas, mais que isso, foi um presente, visto que foi o Estado laico, chamando-nos para aprender o que é saúde, segundo o povo de santo.

    Esta temática agora ganhou espaço junto á imprensa especializada, a imprensa chamada oficial, mas também os espaços virtuais, não menos importante. Não me lembro de teu rostinho nem de ter lhe concedido a entrevista. Geralmente não dou ou corrijo os textos dos jornalistas… No caso de seu texto, basta-me dizer que lhe contrataria, com certeza,como assessor de imprensa da Rede, se esta tivesse condições para tal, simplesmente por ter sido ético o bastante para escrever sobre um fato real e de forma real. Parabéns! Leia uma boa matéria eu diria no lugar da postagem anterior á esta…

    Interessando em ser voluntário no campo informação em saúde nos Terreiros (menina dos olhos de várias agências internacionais com atuação no Brasil), seja bem vindo á Rede. Merecemos e precisamos de profissionais como você.

    Cordialmente!

    Babalorixá Celso Ricardo de Oxaguián
    Coordenador da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde/Núcleo Estado de SP.

    Nossa, eu que fico agradecido. É sempre bom ver projetos como este, relacionados a saúde, seja de qualquer origem.

    A matéria é esta aqui: https://marciogaroni.wordpress.com/2007/10/13/entidades-afro-da-regiao-discutem-saude-e-direito/

    Realmente, eu não cheguei a falar com você, babalorixá. Apenas assisti a sua palestra.

    O trabalho que vocês fazem deve ser divulgado mesmo, e o meu papel é mostrar isso para as pessoas, da melhor forma possível. Comentários como esse só me dão mais força para seguir em frente.


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