A praça sem tevê

16nov07

A cidade de Pasárgada, no sertão de Minas Gerais, não sabe o que é viver sem televisão. O municipiozinho, de cinco mil habitantes, foi fundado em 12 de outubro de 1957. Nesta data, sempre comemora seu nascimento com uma exibição pública de tevê, na principal praça, a Manuel Bandeira. Hoje, cem por cento das residências da cidade possui aparelho de televisão. Mesmo assim, a Praça Manuel Bandeira ainda recebe pelo menos 500 pessoas, de segunda a sexta, para assistir no telão à novela das oito. Até hoje, não: até dois meses atrás.

A cidade de Pasárgada não sabia o que é viver sem televisão. Até 15 de setembro deste ano. O fato aconteceu na festa do Dia da Independência, à tarde. O telão uai-descreen do prefeito Reinaldo (o “Rei” Naldo, como alguns cidadãos e muitos correligionários o chamam) transmitia a sessão da tarde (para ninguém dar desculpa para não ver o desfile cívico) quando, repentinamente, só se viam os chuviscos e o som irritante de tevê fora do ar. Tudo porque um urubu maldito atingiu a antena repetidora da cidade, marco de sua fundação. O urubu morreu de choque elétrico. A antena, de choque mecânico.

Todos concordam que uma nova antena deve ser adquirida. O problema é que a cidade se dividiu em duas. Uma parte deseja que a antena quebrada seja restaurada e, mesmo sem funcionar, continue sendo o símbolo de Pasárgada, como uma múmia egípcia. Outra parte pensa em demolir a velha antena para inaugurar uma nova no local.

Enquanto isso não se soluciona, os mais velhos estão inconsoláveis: vão para a Praça, mal conversam (nem sozinhos), lêem um ou outro jornal, costume perdido já em 57. Milton Fernandes, que se diz ex-amigo do Rei, aos 83 anos, está indignado: “Vou-me embora de Pasárgada!”.

Quem ainda não foi embora do simpático e televisivo município aguarda um consenso sobre o destino das antenas, a antiga e a nova. Pasárgada se tornou cinqüentona no dia 12 e, neste ano, não pôde comemorar a data com a exibição da novela ou do futebol. Entre as diversas medidas tomadas para amenizar o problema, funcionários da prefeitura viajaram para municípios vizinhos a fim de gravar os programas favoritos dos cidadãos.

Na Era Digital, a cidade poderá ter seu primeiro videocassete. Mas já há quem torça o nariz para a proposta. Essa novela está longe de acabar.

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