Álcool-alisados

22abr08

Tinha sido uma noite bem bebida. Cambaleantes, não havia alternativa a não ser voltarem a pé para casa. Então foram os quatro para uma caminhada que, sóbrios, fariam em meia hora. Sóbrios.

Com o pouco do raciocínio que ainda lhes restava, ou apenas com o instinto de sobrevivência mais aguçado, decidiram ir em duas duplas. As duas amigas na frente, uma se apoiando na outra, assim como ele e ela, mal conhecidos, atrás.

É fácil imaginar que, com o caminho que teriam a percorrer, ele e ela iriam se conversar, se conhecer o mínimo para aí, então… Nada disso. O estado em que se encontravam só permitia a troca de murmúrios primitivos (Ex.: Hm? Humnn…).

Pois ia abraçado o casal, num caminhar tão harmônico e compassado quanto os passos de dança que haviam esboçado doses antes. Telepaticamente, ficou combinado entre os dois que o pé direito não se seguiria necessariamente ao esquerdo, tampouco seria preciso (possível?) andar em linha reta. Com tantos fatores contribuindo, é claro que caminhavam.

Eis que, num raro momento de lucidez, ele notou que ela não apenas se abraçava a ele, como também o acariciava, passando as mãos por suas costas, barriga e peito. Logo pensou se tratar de uma pegadinha tramada pelo álcool, mas as pegadinhas que recebia eram realmente dela. Sobrou-lhe, então, retribuir os carinhos, pondo em prática mais uma daquelas leis da etiqueta etílica que não se escrevem: a reciprocidade.

E passaram a se reciprocar, na mais sóbria atitude que haviam tomado na madrugada. Se alisavam, se abraçavam, se davam as mãos esquerdas, enquanto as direitas apertavam um ao outro, cima a baixo, e ainda mais baixo, o que o fez, dias depois, são, se arrepender de ter levado a carteira. Movimentos em variações de mãos, intensidade, unhas, ritmo, peito e quase tudo mais.

De repente, pararam de andar e ela ensaiou uma tentativa de beijo. Ele, sem entender bem a intenção (não entendia nada), pegou-a pelo braço-e-o-resto e voltaram a carinhar.

No meio daqueles caminhos, tentou olhar para ela, o que de fato conseguiu. O problema foi quando tentou falar. O cérebro já estava tão ocupado com o andar, o ver, o ouvir e, acima de tudo, com a reciprocidade, qe pronunciar alguma frase inteligível era tarefa impossível naquele nível etílico.

Seguiu-se assim até o fim da caminhada, quando chegaram à casa onde as três dormiriam. Ele ainda tinha o que andar e, na medida do possível, pensar, até chegar a sua casa.

Na tarde seguinte, só, copo d’água na mão, ele concluiu que aquilo foi o melhor que poderiam ter feito na madrugada anterior. Mesmo porque não conseguiriam fazer nada mais, dadas as condições de tempo, temperatura e pressão. Mas, principalmente, devido aos mililitros consumidos.

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7 Responses to “Álcool-alisados”

  1. O texto tá legal, como os outros… Só faltou um final mais… interessante, caliente, como queira…

    É isso aí, deixe de comodismo e trate de manter este espaço sempre com novos textos para o deleite de alguns inúteis como eu, hehehe

    O final não foi mais caliente porque dependia de mim, entende?

    e tá pensando que isso aqui é o quê? A matéria do motel já é coisa do passado.

  2. Seguindo uma estratégia de mercado, vc tem q dar ao público o que o público quer…
    Dessa forma, deixe de falsos pudores e trate de gastar esse fosfato adulterado q está no ceu cérebro!

    Não me venha com xurumelas e falso moralismo!

    In: ORTRIWANO, Gisela Svetlana. A informação no rádio.

    Comentário embasado. Em outro lugar, mereceria respeito.

    Bem, o que menos fiz aqui foi gastar meu QI. Tô economizando

  3. ebaaaaaaaaaaa! desencantou com um legítimo texto! sem ficar me enrolando com matéria de mural e listas (por mais q sejam interessantes)haha

    adorei, mto bom! é, talvez o final poderia ter sido mais caliente, mas os fatos são fatos né? haha numa próxima oportunidade não deixe o álcool te atrapalhar, pq ele está aí, justamente, para ajudar!

    continue a documentar suas experiências etílicas (e outras tb), ficou mto bom!

    bjoo

    Não sei do que você está falando, isso é pura ficção

  4. que bonitinho.

    Mas realmente, o final foi meio frustrante. Eu tava esperando uma coisa inesperada já.

    Esse povo exige demais de um reles blogueiro…

    Acabou esperando o esperado.

  5. 5 Lorrayne

    completamente diferente do q eu imaginei…

    muito bom!!! vc é foda!!!

    mas concordo com os outros qto ao final… poderia ter sido mais proveitoso, né??? rsrsrs

    deixa pra lá…

    beijos

    Completamente diferente? Como assim? Pensou que eu ia comprometer (mais) alguém?

    Quanto ao final… Hum?

  6. Adoreiii o texto!!
    =D
    Curti demais…
    O mundo é feito de reciprocidade!Totalmente antropológico isso!
    Ah…o final é apenas uma desculpa para eles se encontrarem de novo…;)

    beijo!

    Será?!

  7. 7 Gustavo

    Pervertidos.

    hm?


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