Formatura

19jul08

“Que o esforço pra lembrar
É a vontade de esquecer”
O Vento – Los Hermanos

Era chegado o grande momento. De pé, os colegas atrás, nunca tinha falado para tanta gente como aquela que o observava, à frente, atenta. Em dez anos de existência, seria seu primeiro momento de glória.

Haviam sido duas semanas de intenso ensaio, toda tarde. Cinco páginas, que no início pareciam impossíveis, com os dias foram-se tornando íntimas. Os colegas também tinham sua participação, entre uma e outra fala. Certamente era mais fácil para eles, pensou. Falariam poucas vezes, e em conjunto. Já ele não podia contar com outra pessoa, absorto naquela solidão que somente os heróis e os miseráveis conhecem.

Mas sentia orgulho de sua situação. Não foi à toa que a professora o convocou. Sempre fora o melhor orador da turma, o melhor aluno. Sem a mínima intenção, despertava tanto o amor quanto o ódio silenciosos dos colegas.

Seria o seu dia, e não estava tranqüilo. Banho, roupa alugada, os sapatos mais desconfortáveis de sua vida, gel no cabelo, perfume nauseante. Dobrou o texto cinco vezes e colocou-o no bolso esquerdo. Deitou no sofá e, para espantar a ansiedade, dormiu. Torceu para que, nesse meio-tempo, uma chuva torrencial pudesse adiar a festa, ou que acordasse dez anos depois, ou um meteoro caísse do espaço.

Acordado duas horas depois, sem chuva, sem envelhecer dez anos e sem meteoro, viu que chegava o momento crucial de sua vida. Era sua hora e sua vez.

E lá estava, de pé, diante das cerca de cem pessoas que, para aquela criança, pareciam milhares. Para piorar, ainda tinha os pais, irmãos, avó e avô. Todos confiando nele, torcendo para seu sucesso, que se eternizava em fotos e vídeo.

“Senhoras e senhores, pais e mães, hoje é um dia muito importante para nós…”, iniciou, um pouco titubeante. Ganhou confiança, mentalizando as linhas que falava. Uma, duas, cinco, oito…

Quando chegou na nona linha. Esqueceu completamente. Arregalou os olhos, virou-se para trás, os colegas todos olhando para ele. A melhor amiga também, tensa. Pulou aquela parte do texto. Foi para uma mais fácil.

Mais duas linhas e novamente o branco. Viu que era impossível pegar o papel do bolso. Seria ridículo desdobrá-lo cinco vezes, na frente de todos. E colocaria em xeque sua capacidade de decorar textos, há quatro anos tida como perfeita. Feriria seu orgulho.

Disse mais algumas frases, dando poucas oportunidades aos colegas, que falavam em coro. Mas logo não conseguia se lembrar de mais nada.

Então ficou lá, estático, olhos ainda mais abertos, pernas bambas. Não era a terra que tremia. Com milhões de pessoas olhando para ele, por milhões de horas, mal conseguia pensar.

Talvez se o meteoro pudesse cair naquele momento…

Mas não caiu. Era o Fracasso, com os enormes braços envolvendo a pequena escola, e mil olhos na direção do garoto, paralisado por não saber o que fazer.

Foi no meio desse vazio que ele ouviu a chuva caindo. Começou com algumas gotas, que logo tomaram conta de todo o ambiente. A tempestade tinha vindo para socorrê-lo. Talvez levá-lo dali para outra vida, outro mundo – acordá-lo do sono?

Não era um sonho. Nem tempestade. Eram as palmas de todos que se espremeram na salinha. E não importava mais que ele havia esquecido tudo, foi a sua glória, presenciada pelos pais, irmãos, avós e professoras, seus e dos colegas.

Tinha início a festa, porque a vida precisava seguir e os salgadinhos já estavam esfriando.

Creative Commons License

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3 Responses to “Formatura”

  1. Nossa perfeito!
    Você quem escreveu?
    amei meu queridissimo!

    Beijinhos!

    Sim, fui eu.
    Brigadíssimo.

  2. Trata-se de alguma recordação/trauma do passado?

    (muito bem escrito…)

    Mais ou menos. Não prefere ficar em dúvida?

  3. Olá!
    Essa crônica me lembrou da minha formatura de oitava série, e também a da educação infantil. Em ambas, eu tive que falar em público… Sendo que na da 8a Série, o anfitrião (me fugiu a palavra certa agora) esqueceu de me anunciar, ele achou q eu e o outro orador faríamos discursos separados, fui ao palco “de bicão”.

    bom, é isso, ah.. o que é esse Licaça Creative Commons?

    beijos, Garota-spam

    Acontece…

    A ‘Licaça’ é um esquema para proteger a ‘obra intelectual’ de fraudes. Nessa que eu escolhi, o texto não pode ser utilizado por outros para fins comerciais, mas pode ser reproduzido, desde que citada a fonte. Visita o saite que vc vai saber mais (creativecommons.org).


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