O sapo

09ago08

Era a manhã mais quente do mundo naquelas férias.

– Pedro, acorda, vamos fazer uma coisa legal hoje.

Era Mateus, meu primo. Um deles, porque em julho estávamos todos juntos. Uns dez, dos oito aos dezoito, nos divertindo como nunca no mato, no barro e nas várzeas de Rio Claro.

– Vai mijar, lava essa cara e toma logo o café pra gente sair – ordenou Luís.

Mal entendi o que eles haviam falado, mas sabia que era hora de acordar e que eles queriam isso rápido. Paulo, meu irmão menor, também acordava ao lado. Com um tapa na cabeça dele, disse: “Acorda, boiola.”

Estávamos todos prontos, totalmente vestidos a caráter: short e, talvez, camiseta. O sol parecia dizer que o dia era nosso e, mais do que nunca, pais e tios não iriam atrapalhar.

– Já viu sapo fumar? – perguntou Ricardo, meio que o manda-chuva da galera.

Pensei bem e respondi, decidido:

– Não.

– Sapo fuma? – meu irmão, incrédulo.

Henrique, irmão de Ricardo:

– Fuma sim. A gente põe um cigarro na boca dele e ele fuma até acabar.

Marcos: – Vamos procurar um sapo, aí a gente faz ele fumar.

– Legal – falei.

Não demorou para que alguém encontrasse o sapo. Foi Felipe:

– Aqui!, achei um sapo.

– Pega ele – disse Roberto, mas não adiantava. Felipe era da cidade, e talvez fosse o primeiro sapo de sua vida. Todos pareciam iguais ali, mas o sapo era um divisor de águas entre os caipiras – que pegam o sapo – e os suburbanos – que preferem manter distância. A bons oito metros do sapo, falei bem alto:

– Que bichinha!

Bruno pegou o sapo sem cerimônias e pediu um cigarro a Ricardo. Pegou o isqueiro, acendeu e ordenou:

– Abre a boca dele.

Ricardo pegou um palito de sorvete e abriu a boca do bicho. Os suburbanos ficamos de olhos arregalados.

– Foge não!

– O desgraçado tá cuspindo o cigarro.

– Segura direito!

– Caramba… fuma mesmo.

– Calma…

– Agora ele não solta mais.

Ficamos ali, vendo o sapo fumar. Tentava pôr o cigarro para fora, mas como a língua era muito pegajosa, a bituca ficava grudada. Ele tragava. Tragava. Não soltava a fumaça. Absorvia tudo.

– Não falei que ele fumava?

– Vamos jogar bola.

E foram. Eu fiquei ali, com o sapo fumante, que olhava nos meus olhos. Já fumava há uns quinze minutos. O cigarro pequenininho, quase no filtro. Olhos vermelhos, tristes. Boca, língua se acinzentando, o céu azul, lindo.

Comecei a pensar no sapo e em sua vida inútil. Em sua cara de sapo e em como deveria gostar de insetos, não daquele primeiro cigarro. Em sua vida verde que começava a ficar cinza após um encontro com dez moleques.

O sapo tinha sumido. Vai ver se escondeu por vergonha. Afinal, etava fumando. Quando terminasse apareceria novamente.

O sol estava a pino. Hora de jogar bola.

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2 Responses to “O sapo”

  1. Já te falei ontem que adoro quando vc escreve ficção!

    beijos!!!

    Ah, pára, vai,…

  2. vc viaja….rsrs

    Que nada…


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