O mundo virtual e eu

24ago08

Vou pôr aqui um trecho de um livro que estou lendo (quem acredita?), Mídia e Pânico: saturação da informação, violência e crise cultural na mídia, de Malena Segura Contrera (2002). Depois vou dizer o que eu tenho pensado ultimamente sobre esse assunto, que diz respeito a nós dois (eu e você, claro).

“O espetáculo virtual, antes só oferecido pelos mídia de massa (com uma instância emissora central), agora é também a estética das relações interpessoais. Isso talvez explique em parte a queda de audiência da TV em todo o mundo. Finalmente, todos estamos na TV, e nossos “15 minutos de glória” dependem de que a ligação telefônica não seja interrompida. Essa talvez seja a transformação da realidade representada em simulacro, sobre a qual fala J. Baudrillard (1991).
“Com a distância, a virtualização, o homem perde a experiência do tempo presente; livra-se também, por outro lado, da consciência da transitoriedade. A imagem virtual traz a ilusão da eternização de uma pessoa no momento mesmo em que, de fato, o que ocorre é a dissipação do sujeito corporal, de sua identidade concreta.
“Para fugir à finitude humana, à mortalidade (matando o tempo antes que este o mate), o homem contemporâneo recorre à comunicação virtual, inaugurando um tempo virtual infinito que foge às leis da mortalidade, satisfazendo seu instinto/pulsão de poder e de controle do egóico. Na carne, morremos; na imagem, somos, instantaneamente, ilusoriamente eternos.
“Virtualizar o corpo foi uma forma simbólica encontrada por nosso tempo para apaziguar o medo da morte. Só que, ao abrirmos mão da morte, abrimos mão também da vida, já que elas são indissociáveis.
“Essa é uma solução típica do homem cuja mão direita não sabe o que faz a esquerda, e que, por sua própria dissociação psíquica, não pode se dar conta disso.
“Fugindo da morte pela tecnologia, precipitamo-nos justamente pela goela abaixo de Cronos que, agora, tem a face da segurança insossa dos prazeres virtuais. E a saga que agora vemos se desenrolar sob nossos olhos não é mais a do herói humano, e sim a da máquina. Na mídia, Frankenstein ganhou implantes cibernéticos, virou Robocop.
“Dietmar Kamper diz (1997) diz que Deus sonhou o homem que, por sua vez, sonhou a máquina, e que a máquina sonha Deus. Deus já acordou, o homem ainda não. Talvez por isso as máquinas estejam tão vivas enquanto o corpo humano se rarefaz e se transforma em imagens cujos suportes são cada vez menos o bom e velho barro do qual fomos feitos.” (p.54-55)

Como ela diz, o espetáculo virtual não está mais só nas grandes emissoras, mas está entre nós. YouTube, Orkut, Blog, Fotolog são exemplos disso. O homem se torna virtual, um simulacro de si mesmo. Quantas pessoas a gente não conhece apenas pela internet?

Partindo daí, eu pergunto: como posso dizer que conheço essas pessoas, se nunca tive um contato REAL com elas? E qual é a visão que essas pessoas têm de mim, através de meus perfis em sites de relacionamento, deste blogue, fotos, vídeos, até mesmo de bate-papos virtuais?

Quero dizer que esses perfis e tudo o mais serão sempre algo virtual, simulacros da realidade. Não é raro ouvir que te imaginavam de outra forma, não é? “Pensei que você fosse diferente”, é uma frase que eu sempre ouço.

Pensando bem, foi mesmo pra fugir da morte que eu fiz este blogue. Talvez esta seja a principal motivação das pessoas. E isso não é bom. Ouvi falar de um cara que sempre muda a frase do msn para que, no caso de morrer, as pessoas saibam exatamente o que ele queria dizer.

Repetindo a frase de Malena: “A imagem virtual traz a ilusão da eternização de uma pessoa no momento mesmo em que, de fato, o que ocorre é a dissipação do sujeito corporal, de sua identidade concreta.”

Na verdade, em vez de nos eternizar, essa virtualização nos desintegra, “bagunça” ainda mais nossa identidade. O que dizer quando o Orkut me pergunta quem sou eu, sabendo que dezenas de pessoas vão saber de mim por essa frase?

Bem, todos devem passar por isso, em maior ou menor grau. Acho que, finalmente, desencanei dessas questões.

Enfim, é muito interessante surpreender as pessoas. Não pensei que eu fosse assim.

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