Reinaldo e Renata

11out08
Texto e fotos: Márcio Garoni

Reinaldo Ferreira não vai mais aparecer nos jornais como alcoólatra e morador de rua. Renata Souza Barão terá a chance de recomeçar sua vida. Após um namoro de três meses, eles se casaram em 11 de outubro, recuperados do vício e com uma casa para morar, em Cubatão, no litoral de São Paulo.

Grande mérito dessa união se deve ao trabalho do Centro de Intervenção junto ao Migrante, População de Rua e Itinerante (Cimpri). A assistente social Clélia Maria Ribeiro dos Santos afirma que, em 20 anos de trabalho, este caso é único. Ela acompanhou de perto a história do casal, e diz que eles se transformaram assim que se conheceram. Clélia e o marido serão os padrinhos de Renata, e a outra assistente social que acompanhou o caso, Érika Esteves Peres, junto com seu esposo, serão os padrinhos de Reinaldo.

O casal com a assistente Clélia, no Cimpri

Reinaldo e Renata com a assistente Clélia, no Cimpri

Reinaldo, de 37 anos, vivia há mais de 20 anos na rua. Quando adolescente, morava com os pais adotivos em Matão, cidade do interior de São Paulo. Como não se entendia com o padastro, foi embora, percorrendo a pé os quase 400 quilômetros até Santos. Tempos depois, chegou a Cubatão, sempre morando na rua. Reinaldo foi usuário de drogas, e oito anos atrás passou a freqüentar o Cimpri. Ele era alcoólatra, e durante todo esse tempo não conseguia se recuperar. “Eu não tinha compromisso com ninguém, por isso bebia”, diz.

Renata, de 32 anos, usava drogas desde os 16. Era casada, morava em São Paulo, e chegou a ser presa por tráfico de entorpecentes. Quando saiu da cadeia, no início do ano, presenciou a traição de seu marido. Ainda perdeu o pai em 10 de janeiro, o que a deixou arrasada. Decidiu ir embora com o filho, perambulando pelas ruas, até chegar em Cubatão. O filho também enfrenta problemas e sua guarda pertence à avó, que mora em São Paulo.

Reinaldo conheceu Renata há três meses, na Praça Princesa Isabel. Ele a apresentou às assistentes do Cimpri, que tomaram conhecimento de sua dependência química. Desde esta época eles começaram a namorar, há algumas semanas alugaram uma casa e, o mais importante, prometeram um ao outro que abandonariam o vício.

Clélia lembra quando viu a transformação de Reinaldo: “Um dia veio um senhor todo sujo, ferido, em estado deplorável, e o Reinaldo cuidou dele, deu banho. Até hoje aquele senhor é agradecido. Eu nunca tinha visto aquele comportamento de Reinaldo”, diz Clélia, com lágrimas nos olhos.

Reinaldo nunca mais bebeu depois de iniciado o namoro com Renata, apesar dos primeiros dias de “tremedeira”, com a abstenção. Ela também se propôs a deixar as drogas, principalmente após uma recaída, semanas atrás. O casal tinha pedido a conhecidos alimentos para vender. Venderam tudo, e Renata pediu a Reinaldo que desse a ela dinheiro para comprar uma lata de cola. Contrariado, ele deu o dinheiro, e Renata começou a cheirar a cola. Reinaldo deu o ultimato: “Se você quiser continuar comigo, isso vai ter que acabar”. Ela jogou a lata fora, e nunca mais nenhum dos dois voltou ao vício.

Para pagar a casa, um cômodo localizado na Rua Marechal Rondon, próximo à Avenida Nove de Abril, eles têm uma carroça, em que coletam material reciclável. Reinaldo completa a renda trabalhando em outras casas, como ajudante geral. O dinheiro do trabalho é confiado a Clélia e Érika, em um envelope que deixam com as assistentes, em que fazem saques e depósitos. “Quando chega o meio do mês eu já fico preocupado com as contas da casa”, diz Reinaldo.

 

O casal em frente ao trabalho da semana

O casal em frente à carroça com que trabalham

 

 

O nome Renata significa, em sua origem, “renascida”. E a perspectiva de uma nova vida aumentou ainda mais com a notícia recebida no fim de setembro. Renata espera um filho de Reinaldo. Eles até decidiram o nome: se for menina, Iasmin; se for menino, Diego. Renata não tem preferência, mas Reinaldo já se adianta: “Eu quero um menino”.

 

Matéria também aqui.

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2 Responses to “Reinaldo e Renata”

  1. 1 Ana Paula

    Muito boa tua matéria, Marcioo! Parabens!

    \o/

  2. «Nada é permanente neste mundo cruel. Nem mesmo os nosso problemas.»

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