Metrô

29dez08

Metrô - Márcio Garoni

Jabaquara

Todo fim de ano é assim: cruzar a cidade inteira para rever quem realmente interessa. Na São Paulo engolidora de gente, o metrô é a garganta de metal. E aqui estou, mais uma vez cruzando a cidade imensa, ao encontro dos que sempre estiveram comigo.

Conceição

Entra um casal. Malas. Três crianças, umas pestes. Sujos. O exército da bagunça. Vêm se sentar do meu lado. O casal, porque os pequenos não param. São o centro das atenções. Sorrio. Também já fui criança.

São Judas

Em outros tempos, quando vinha com meu irmão mais velho, pequenos os dois, ficávamos olhando pela janela as paredes, os vagões no sentido contrário, as outras estações, com uma enorme curiosidade. Como o metrô fazia para virar?

Saúde

Em algumas dessas viagens passadas, quando o metrô fazia um barulho alto, a gente gritava no mesmo tom, imaginando que mais ninguém pudesse ouvir. Até a vez em que o nosso pai nos chamou a atenção. Ainda hoje sinto vontade de gritar.

Praça da Árvore

Como em todo ano, novas notícias na família. Desta vez, ninguém se casou, ninguém nasceu. Mas tem casamento chegando ao fim, e por isso nem todos vão estar juntos. É chato, e a gente sabe que não tem muito a fazer, a não ser ouvir, aconselhar. Ou apenas estar junto.

Santa Cruz

Uma senhora entra carregando uma mala enorme. Vai se sentar no fundo, bem no canto, e fica olhando para o vazio. Não é capaz de encarar ninguém. Olha o relógio. Passou das dez. Talvez não dê tempo. Ajeita os cabelos brancos. Deve ter sido muito bonita em outros tempos.

Vila Mariana

É engraçado o efeito que o tempo causa nas pessoas, de acordo com a idade. Nesses anos todos, os tios e a avó parecem os mesmos de sempre. Ao contrário dos primos, alguns se tornando pais, outros crescendo, tomando corpo… Tem uns que há muito tempo não vejo, e é triste saber que vou passar no mínimo mais um ano sem vê-los.

Ana Rosa

A loira desce. Olhava para ela desde o começo da viagem, do outro lado do vagão. Nos últimos minutos parecia que também olhava para mim, mas estava muito longe, não tenho certeza.

Paraíso

Como é mesmo o nome daquele filme? Sim, Jogo Subterrâneo. Felipe Camargo, Maria Luisa Mendonça, Júlia Lemmertz. Um homem que passa o dia no metrô, com um caderninho, seguindo as mulheres que poderiam fazer o mesmo trajeto que ele. Vi outro dia, na Cultura. Muito bom.

Vergueiro

Foi um ano bom, mas poderia ser melhor, se eu me esforçasse mais. Depois de pular de galho em galho, consegui um emprego decente, estável, as coisas melhoraram em casa, conheci pessoas interessantes…

São Joaquim

Só não poderia ter aberto mão dela. Me deu todos os sinais, ainda perguntou como poderia viver sem mim. Depois quis dar um tom de brincadeira, mas ficou bem claro que dizia de coração. Agora é tarde, ela está longe.

Liberdade

Ainda bem que continuamos contando com eles. Depois da morte do meu pai, há dois anos, temíamos que a família se afastasse de nós. Afinal, sempre tiveram atritos com a minha mãe. Mas a relação até melhorou nos últmos tempos, e o nosso contato é cada vez mais constante.

Senta-se bem no banco que está na minha frente. Eu olho, olho, e finalmente ela retribui. Grandes olhos negros, que sempre me deram boas lembranças. Aquilo foi um sorriso? Juego de Seducción, do Soda Stereo. “Te llevaré hasta el extremo”, penso. Essa banda foi uma grande descoberta no ano, sem dúvidas.

São Bento

Tiro da mochila um livro sobre o Henfil. Pequeno, nem cem páginas. No ano em que eu nascia, ele morria, aos 44 anos. Era hemofílico, e contraiu aids em uma transfusão de sangue. Mesmo assim, fez o que fez. Preciso ler mais no próximo ano. De tudo, biografias, poemas, ficção. Nisso eu deixei a desejar.

Luz

Também tenho que voltar a escrever, a tocar violão e a desenhar. “Por que você parou de desenhar?”, sempre me perguntam. Porque sim, simplesmente parei. Mas voltarei ao lápis, sim. E aos escritos, que já passou da hora.

Tiradentes

Outra coisa que vou precisar bastante durante o ano: mais teatro, shows, festas, amizades, emoções. Será um ano tenso, intenso, e novas experiências serão muito bem-vindas.

Armênia

Volto a encontrar os grandes olhos negros na minha frente. Um, dois, três, quatro segundos, e ela vira o rosto. Tiro os fones de ouvido. Pego o celular, finjo que estou procurando um número, e tiro uma foto dela. Só os pés, as pernas, e as alças da mochila. O suficiente.

Tietê

Tenho uma irmã mais nova, e uma das poucas vantagens disso são as amigas. Outro dia apareceu em casa uma morena alta, cabelos compridos, olhos pretos, um sorriso lindo. Depois, Juliana diz pra mãe que a morena me achou bonito. A idade? 15 anos.

Carandiru

O exemplo dessa morena é só mais uma prova de que eu vou ter que melhorar a minha capacidade de “sacar a situação” para o ano que está vindo. Já perdi as contas das vezes em que outros tiveram que vir e me dizer, ou quando eu entendi a coisa só no dia seguinte. Saber quando o álcool é um aliado e quando é um inimigo é outra coisa que vou precisar.

Santana

Mais uma vez flagro a mulher dos olhos pretos olhando para mim. Retribuo, e ficamos nesse jogo até a parada seguinte. Não é amor, paixão, apenas uma brincadeira para se passar o tempo. Como os jogos que se faziam na escola, de olhar fixamente para o amigo, sem piscar. Eu sempre perdia.

Jardim São Paulo

A vó parece que está meio doente. No meio do ano passou uns dias lá em casa, até deixou uma mala com roupas, para quando voltar. Pelo telefone, disse que poderia ser nosso último fim de ano juntos. Exagero dela. Não é imortal, mas é como se fosse. É difícil nos imaginar sem a vó.

Parada Inglesa

Para mim, o ano precisa ser de grandes mudanças. E a maior tem que ser comigo. Preciso melhorar meu humor, ser uma pessoa engraçada, como meu pai foi, a sua maneira. Tem faltado um pouco de graça na vida de alguns amigos, e se eu for um pouco mais cômico, ganho uns pontinhos com eles.

Tucuruvi

Hora de descer. Os olhos pretos também descem. Saem na frente, andando devagar. Sobem a escada rolante, viram à direita. Eu vou pela esquerda. Sigo o meu caminho, cada vez menos preparado para o que me espera. Mas com uma vontade enorme de encarar tudo.

* * * * *

É isso aí, pessoal. Foi o último texto do ano, eu acho.

Mais do mesmo, só em 2009. Bom ano que vem pra todo mundo.


P.S.: Último texto do ano, vírgula: contribuição especial, direto para a capital do Ceará, no Harmless Monsters, blogue da Neyara Furtado, uma grande amiga das madrugadas feita por meio desta página. Uma retribuição ao presente que ela me deu – podem conferir nos comentários do texto anterior. Já pedi para visitarem?
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4 Responses to “Metrô”

  1. Seu texto me deu uma tremenda vontade de escrever o caminho inverso. É o que eu sigo diariamente pra ir trabalhar. No metrô acontece um mundo inteiro!
    Outro dia entrou um senhor cantando músicas italianas românticas, mas nem foi desses que fazem isso pedindo dinheiro. Ele apenas doou um ótimo dia e a inspiração pra um texto.
    Volte a desenhar. Quem sabe um dia eu volto tb. E a tocar violão! O meu fica guardado, e vez em nunca, eu toco só de coração…
    E os olhos negros, encare-os sempre! E não fuja, siga-os. Um dia você se encontra dentro deles…

    Um grande beijo!
    E um excelente 2009 pra vc!

    Escreva sim, por favor.

    E eu não sei tocar violão. Não tenho o menor dom para música.

  2. Nossa, Márcio, adoreiiii esse texto!!! =)
    Vc pegou a linha azul inteira!!!
    Pego mais sentido Jabaquara do que Tucuruvi (e olha que meu pseudo amor mora lá)(saquei agora que amor e mora possuem as mesmas letras meu amor mora, mora amor, amor mora, amora amor, mora amora…hauhauha….viajei, mas enfim…), sempre da estação Paraíso…
    beijos, queridooo
    um 2009 lindoooo

    Pra você também, Amora.

  3. Eu lii seu texto no blog da Neyara!
    Foda!

    beijos.

    Ó o palavrão, porra!

  4. Excelente texto. E Soda Stereo é a melhor banda de todos os tempos.

    Hehe. Uma das.


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