A busca

04jan09

Pensou em escrever, mas por onde começaria? Um texto nunca é sua ideia original. Isso porque o pensamento não se faz com palavras-encadeadas-coerentemente-em-um-conjunto-de-sentenças-claras-o-bastante-para-fazer-sentido-a-qualquer-um.

Já estava no segundo parágrafo, mas aonde aquele texto iria levá-lo? Qual seria seu objetivo – o do escritor e o do escrito? Alguém certamente iria ler, mas será que iria gostar? Talvez escreveria após ler seu texto. Mas também chegaria à conclusão de que um texto nunca é inteiramente sua ideia original. E da mesma maneira que ele, se frustraria.

Foi dar uma volta pela casa. Bebeu alguma coisa, deu uma olhada pela janela, na esperança de que outras ideias lhe viessem à mente. Desistiu. Mesmo que viessem as tais ideias, elas nunca seriam materializadas plenamente, pois um texto jamais reproduz sua ideia original.

Voltou a escrever seu texto sem texto, e já pensava no desfecho que daria a ele, mesmo que fosse um desfecho sem desfecho. A caneta, mais frustrada que ele, decidiu falhar, e precisou ser trocada. Mais uma ou duas frases vazias, e viu que seu texto finalmente chegava a algum lugar, que ele ainda não sabia dizer qual. Chegou a pensar que de nada valia aquele escrito, aparentemente vazio de ideias, mas lembrou que um texto nunca pode ser a ideia que o origina.

Numa epifania, notou que o texto que finalizava não era original, assim como não eram originais todos os textos que lera e todos os que leria em sua vida. Da mesma forma, o próprio pensamento de que “um texto não é sua ideia original” também não era original.

Sorriu. Realmente, seu texto não havia chegado a lugar algum. Não era, afinal, porra nenhuma.

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Sou um iconecareca!

Primeira ideia escrita sob as regras do Acordo Ortográfico dos Países de Língua Portuguesa. As ideias saem estranhas, não? Mas com o tempo a gente se acostuma. Quem quiser pode baixar um guia. Não precisa se preocupar, por enquanto: as novas regras só são obrigatórias em 2012.

Tem gente que reclamou das novidades, mas eu achei legal. Imagina se a língua não mudasse, e a gente ainda escrevesse “pharmacia”, “difficuldade”, etc. Machado de Assis foi um herói (sim, “herói” ainda leva acento).

Aliás, eu achei muito tímida essa reforma. Que utilidade tem o “h” no começo das palavras, por exemplo?

E, sem nenhum quiproquó, ainda cortam o coitado do trema, que não incomodava ninguém. O que vão colocar em cima do 6, agora? Até o qüé-qüé-qüé dos patos vai ter que mudar.

A Alcione até cantou:

Não deixe o trema morrer

Não deixe o trema acabar

Como vou ficar tranqüila

Sem o trema para acentuar?

(Composição: Mariana Ribeiro)

Há campanhas por todo o lado, como o Adote um Trema, lançado por Eduardo Trindade. Como ele aceita emprego até na vertical, basta lembrar sempre de usar dois pontos. Simples, não?

Também lançaram soneto de despedida, mas também há quem não vai sentir a menor falta.

Os escritores Sérgio Rodrigues e André Conti, cada um a sua maneira, também escreveram sobre essa morte nada tranquila.

Quem serão os próximos: o acento grave? O “ç”? Te cuidem…

trema

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One Response to “A busca”

  1. 1 Mariana

    Ah que estratégia linda.
    Escrever um texto sobre escrever um texto. Muito utilizada por pessoas que tem que escrever toda semana e nem sempre tem idéia nova.
    No livro do Mário Prata tem uma crônica sobre como escrever uma crônica resfriado.

    Mas ficou bem legal. 😀

    Ah é, né?


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