Criador, criatura e uma praga superada

11jan09
Zé do Caixão
Zé do Caixão ou José Mojica Marins? Difícil responder, ainda mais quando ele aparece, sempre de cartola e capa preta. A voz continua a mesma, mas as mãos já não são as de antanho – hoje, só o polegar da esquerda ostenta a unha enorme.
Aos 72 anos, o diretor teve a sua maior realização no último ano, com o lançamento de Encarnação do Demônio, que fecha a trilogia do Zé do Caixão, iniciada em 1964, com “À Meia-Noite Levarei sua Alma”, e continuada com “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”, de 1967. Este terceiro filme parecia amaldiçoado pela própria Praga do Dia, fadado a nunca se realizar.
Nos anos 70, mesmo com a censura, um produtor americano se dispôs a bancar as filmagens de “Encarnação”, mas acabou morrendo. Na década seguinte, nova possibilidade, com o mesmo produtor de “Esta Noite”, que também morreu. Na década de 90, roteiro pronto, elenco escolhido, filmagens marcadas, um coquetel seria realizado. A data? 13 de agosto. Não deu outra, o produtor Ivan Morais morreu, e mais uma vez o filme era cancelado.
Tudo mudou em 2000, quando Zé foi procurado por Paulo Sacramento e Dennison Ramalho para fazer o terceiro filme. Cabreiro com as mortes anteriores, Mojica logo perguntou se eles eram casados, se tinham sócios… Quando soube que várias pessoas estavam envolvidas, ficou mais tranquilo. “Era muita gente para morrer de uma vez só”.
No ano passado chegava aos cinemas “Encarnação do Demônio”, fechando a trilogia do coveiro maldito. Sem deixar de fazer uma vítima: Jece Valadão, que interpretava um dos principais personagens do filme, morreu antes do fim das gravações.
De cara, o filme foi o grande vencedor no Festival de Paulínia. Depois, “Encarnação” correu a Europa, em outubro abocanhando o prêmio de melhor filme de terror no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Catalunha, na Espanha. Zé ainda deve percorrer vários países com sua “Encarnação”.
Encarnação do Demônio - Divulgação/ André Sigwalt
Assim como acontecia com Fellini, a inspiração para as histórias de Zé do Caixão vêm enquanto dorme. Porém, enquanto o italiano tinha lindos sonhos, o brasileiro sofre com os mais terríveis pesadelos. Desde cedo adotou o costume de manter na cabeceira da cama um caderno, para anotar o que sonhou. Isso quando consegue dormir: precisa tomar comprimidos contra a insônia. Como se não bastasse, também é sonâmbulo. A mulher nem deve mais se assustar quando tem o sono interrompido por uma Praga do Dia.
A fama de Zé do Caixão, a criatura, sempre foi maior que a de José Mojica Marins, o que causou muitas confusões ao criador. Ele perdeu a conta de quantas casas mal-assombradas visitou, já foi convencido a ficar oito horas no telhado de uma casa, debaixo de um temporal, para falar com ETs, e houve até quem o considerasse nazista. Mas o episódio mais cômico – e tenebroso – aconteceu em uma cidade de Santa Catarina.
Zé foi convidado para um jantar na casa de um fã. Chegando lá, a primeira surpresa: “O cara parecia o Drácula, e tinha um ajudante meio corcunda”. O anfitrião vivia com uma jornalista, que havia se apaixonado por ele quando o entrevistava para uma matéria. Antes do jantar, o drácula pediu para Zé fazer os agradecimentos, na pele do personagem, claro. Após a refeição, o homem o levou até seu quarto, onde apresentou seus pais, em uma cama, e disse: “Eu e minha mulher fazemos amor ouvindo os gemidos deles”. Mojica mal sabia o que vinha a seguir.
Ele então foi convidado a conhecer o cemitério e a igreja, cujo padre havia sido expulso pelo drácula. No cemitério, conheceu os bisavós do anfitrião. Ou melhor, o que restou deles. Teve que conversar com os esqueletos, e até dançou com os novos amigos. “Eu ia fazer o quê? Aquele cara podia me matar!”, se justifica. Conseguiu ir embora, são e salvo, e denunciou o caso a um jornal, que mandou um repórter ao local. Foi descoberto que o drácula matava pessoas em seus rituais satânicos. O homem acabou preso, quem diria, graças a Zé do Caixão.
Outro grande problema ocorreu com uma classe interia de trabalhadores. Em 1968, ele apresentava o programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão, na TV Tupi. Na primeira história exibida, “O Açougueiro”, Lima Duarte interpretava um personagem que abastecia seu comércio com carne de suas vítimas. Os açougueiros queriam fazer picadinho de Zé do Caixão.
Por conta da censura às suas histórias de terror, nos anos 70 Zé dirigiu pornochanchadas, com o pseudônimo de J. Avelar. Na década seguinte, partiu para o sexo explícito, já assinando como José Mojica Marins. Ele diz que o produtor Mario Lima se dispôs a financiar “Encarnação”, desde que ele dirigisse um filme pornô de sucesso.
24 Horas de Sexo Explícito, de 1985, arrombou os cinemas de todo o país, a começar pelo cartaz , que anunciava “cenas entre ‘a menina e o cachorro’ como jamais foram mostradas no cinema!”. Zé foi bastante seletivo no elenco: além do pastor alemão, convidou três dos maiores atores pornô da época, e as mulheres mais feias de São Paulo. Ele conta que a atriz Vânia Bournier, que havia se candidatado ao filme, disse-lhe que já tinha feito mais de 30 filmes, mas pouco aparecia. “Minha filha, agora você vai aparecer demais”, ele profetizou. Vânia protagonizou a cena com Jack. Ah, Jack é o cachorro, e foi a primeira cena de bestialismo do cinema nacional – que dá mais medo que muito filme de terror, diga-se de passagem.
Apesar do sucesso, Mario Lima não cumpriu a promessa, e ainda fez Mojica dirigir uma continuação, no ano seguinte, “48 Horas de Sexo Alucinante”. Zé procurou Jack para o segundo filme, mas ele havia morrido, envenenado pelo dono. Definitivamente, um homem que não entendia a arte.
Hoje, após “Encarnação do Demônio”, Mojica continua com vários projetos. O mais promissor deles é um curta-metragem: “Eu quero fazer um documentário sobre as mulheres e os homens feios. Vai ser uma homenagem a todas essas pessoas”.
Apesar de toda sua história como vilão, Zé do Caixão é praticamente meu herói.
Momento Márcio
Foto: Carlos Freire
P.S.: Como em todo encontro, Zé dá um conselho aos fãs, para seguir por toda a vida. E se possível, por toda a morte também.
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3 Responses to “Criador, criatura e uma praga superada”

  1. Post mais que completo! Queria ter saco de fazer um assim sobre algo. :}

    Haha, eu quase não tive. Foram quase dois meses. 😉

  2. Olá, Márcio.
    Obrigada pela visita e pelo comentário.
    Nem sempre eu deixo recado, mas saiba que sempre dou uma passadinha aqui e gosto muito do seu blog.

    Abraço,
    Cris

    Sem problemas. Eu sei que tenho milhões de leitores.

  3. Texto primoroso. Só tive uma dúvida: quem é quem na foto?

    Ritmo e poesia para os olhos e ouvidos.

    Vi estes dias nas lojas americanas alguns dvd do Zé do Caixão a R$ 12,99. Só não comprei porque tenho no pc, bublado em italiano e legendado em português – o detalhe de estar sem dinheiro para comprar os tais discos é um mero detalhe.

    Clássico, clássico, clássico.

    Sabia que alguém ia fazer essa piada, já que eu não fiz. Ok, ok, eu sou o mais novo.

    Só vi um filme do Zé do Caixão.

    Quanto as Americanas te deram pra fazer essa propaganda?


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