Déjà vu

21jun09

Deja vu

– Mais alguma coisa?

Se não fosse pela pergunta, eu não perceberia que tinha mudado a mulher que empacotava o pão. Também, com aquele avental bege e touca na mesma cor, qualquer mulher pareceria a mesma. E do jeito que sou atento, às vezes não diferencio nem Pelé de Xuxa. Mas a mulher da padaria era outra mesmo, e só reparei quando ela perguntou se eu queria mais alguma coisa.

– Han? Ah, não. Obrigado.

– Obrigada.

Paguei pelos pães no caixa, e na volta para casa, fiquei pensando naquela frase. “Mais alguma coisa?”, sussurrei sozinho. Raha, querer eu quero, meu bem.

*

No outro dia, trabalho. Centro da cidade. Caminhava pelas ruas, e sentia que faltava mais alguma coisa. Vi uma porta aberta num casarão em pedaços, apareceu uma perna. Diminuí o passo, estiquei o pescoço. Outra perna. Um braço. Um corpo. Meio rosto. Uma boca:

– Vem cá, vem! – e um dedo me chamando.

Cabelos loiros, olhos azuis, extremamente maquiada. Teria o quê, uns 25 anos? Passei meio assustado, sem dizer nada. Desesseis anos, ainda inocente, e o pior, sem um puto no bolso. Fui embora. Como ela, precisava ganhar o dia.

*

À noite, fiz questão de comprar o pão novamente. A mesma moça nova. Vinte e poucos anos, olhos azuis, boca… cacete! Parecia ela! Pedi os pães, me deu:

– Mais alguma coisa?

– Não… quer dizer, sim. Qual seu nome? – perguntei.

– Lúcia. – disse, e sorriu quase que ao mesmo tempo.

Devolvi o sorriso, e agradeci. Lúcia, a moça do pão. A moça que oferece mais alguma coisa. A moça que tem duas vidas.

*

No trabalho, dia seguinte, aproveitei a hora do almoço para refazer a caminhada pelo centro. Naquela mesma porta, a mesma perna. Era ela.

– Vem cá, lindo, vem cá!

Passei. Será que é ela? Voltei, com uma coragem tirada não sei de onde.

– Voltei. –  e fiquei olhando bem para aquele rosto cheio de pó.

– Olá, moço. qual sua idade?

– Dezoito. – menti. Aqueles olhos, cabelos, boca, eram mesmo familiares. Mas um pouco diferentes. Decidi arriscar:

– Qual seu nome?

– Luciana.

– Ahnn.

– Por quê? Mais alguma coisa?

Conferi o bolso de trás, tudo ok. Entrei e subimos as escadas

____________________________

1 – Lendo Bukowski – Numa Fria. Deu pra perceber?

2 – Ressuscitando o blogue, para a alegria de vocês três. E a foto é minha.

3 – Tuítem-me

4 – Rafinha Bastos zoou meu jornal. Mas fui tirar satisfações.

4 – Agora eu sou jornalista! Eu e você! A melhor tira sobre o fim da exigência do diproma aqui, por Gustavo Delacorte.

5 – O Curta da Semana tem tudo a ver com o conto 😉

6 – Minha estreia na dramaturgia, como personagem principal. De 2006.

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4 Responses to “Déjà vu”

  1. 1 Cahefreire

    Comeu a baguete?

    Quem?!

  2. Quer dizer então que você empacotou a empacotadeira?

    Valeu pelas palavras sobre os rabiscos!

    Hein?

  3. sabia que voce tava lendo bukowski!!!!
    soh podia!!!

    o mais depravaado….. o autor que eu amo!!

    Eu, né?

  4. Ah moço que escreve, eu passo por esses “acasos do cotidiano” vez ou outra.
    E vejo um certo fantasma de 2005 voltar sem razão.
    E mexer muito comigo, consequentemente.
    Abraços.

    Como assim, conta direito essa história


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