Banho de mar

09jun12

*Publicado na coletânea Santos Revisitada (2011), do selo editorial artesanal Estação Catadora, do Ponto de Cultura Estação da Cidadania e Cultura de Santos. Organização de Alessandro Atanes.

(À Mari)

É sexta-feira. No jornal leio uma nota, sobre um show à noite. Heitor Mário e sua banda, no Internacional. Blues e rock and roll, que há muito tempo não vejo ao vivo. Vai ser legal, estou de férias da faculdade, a entrada está a cinco reais, sobra dinheiro para a bebida. Só preciso chamar minha companheira de papo que, por sinal, está online.

Lucas: Sair hoje?

Marcela: Vamos sim. Onde?

Combinamos tudo, chamamos outros amigos durante o dia. “Vai ser legal”, diz ela.

Um casal amigo topa o rolê. Marcamos com eles às 19, meia hora antes de começar o show. Mais cedo vou encontrar Marcela que, perdida como é, não sabe chegar ao Inter. Mora há pouco tempo por aqui, perto do Canal 1 com a praia. Mas é a praia, não tem erro, só descer na Ponta da Praia, quando chegam os clubes…

Pego o 30 na Afonso Pena, perto do canal 4, e desço na Francisco Glicério, uma quadra antes do Canal 1. Digo que estou aqui embaixo, em frente ao prédio de Marcela. Dez minutos, e ela desce. Vinte e um minutos, e subimos no 23, que pegamos na praia. Mais uns bons minutos de trânsito na praia, e descemos. “Viu? Simples!”, ensino, antes de perceber que acabamos desembarcando um ponto depois.

Na entrada do Inter, vemos Carla e Alexandre, que nos recebem preocupados: “Alguém de vocês são sócios do clube?”, pergunta Carla. “Porque só sendo sócio, ou vindo com um”. Ferrou. E agora?

– Ei, pessoal, vamos entrando – chama Marcela.

Entramos, e digo que não sabia que ela era sócia do Inter. Aliás, uma péssima associada, que sequer conhece o clube. “Não sou sócia. Disse apenas que somos comportados, que não vamos causar nenhuma confusão”. Cara-de-pau. Salvou nossa noite fria.

Começamos com cerveja e bate-papo enquanto aguardamos o show. Alexandre e Carla planejam uma viagem, a primeira mais longa do casal: Natal, Rio Grande do Norte, no fim do ano. Que bacana, estão animadíssimos. Vimos os dois se conhecerem e engatarem o namoro, é bonito vê-los empolgados, se dando bem. Falo dos meus planos: arranjar um emprego a partir do mês que vem, impreterivelmente. “O que tiver que ser, será”. Marcela, por sua vez, é mais imediatista: quer para hoje as batatas que pedimos.

Interrompemos o papo quando ouvimos os primeiros acordes do trio. Guitarra, baixo e bateria. Sem voz. Heitor começa sua série de caretas enquanto dedilha as cordas da Fender vermelha. No baixo, um rapaz alto e compenetrado dá a base do som, enquanto um tiozão cabeludo e com uma faixa na cabeça maneja as baquetas com precisão. Estamos perto da banda, bem de frente, impressionados com o poderoso som. Só algumas gotas de chuva, que caem do toldo furado, atrapalham nossa concentração nos caras, que mandam muito bem.

Depois da segunda música, voltamos a puxar assuntos. O último artista que morreu, a professora que fala sempre no gerúndio, nossos animais de estimação, tudo isso é tema para debates acalorados, em meio a goles e risos. Já mais alcoolizado, lembro de uma vez em que ganhei um par de ingressos para um show que queria muito ir. Peguei o ônibus para São Paulo, com uma amiga, e só descobri que tinha esquecido os convites na porta do show, morto de vergonha, pedindo à amiga desculpas como um condenado. No final, deu tudo certo: fomos a uma balada próxima, nos conhecemos melhor, ficamos… “Como a balada saiu cara, e era em São Paulo, a garota ficou mal acostumada. E eu, sem um puto”, finalizei, para risadas de todos.

O show termina, pegamos o CD autografado, pagamos a conta e decidimos dar a noite por encerrada, ainda antes da meia-noite.

Nos despedimos de Carla e Alexandre, que moram por lá mesmo, e Marcela me diz que quer voltar a pé, da Ponta da Praia até o Canal 1. Respondo que tudo bem, afinal o que não me pedem sorrindo que eu não faça chorando?.

Caminhamos pela calçada, ao lado dos clubes, e Marcela conta que prefere ter uma vista mais bonita da orla. Atravessamos a avenida e andamos pela areia da praia, bambos de bêbados, jogando fora mais conversa. Entre os papos, casos amorosos, família, cinema, futuro, e tudo o mais que entendermos ser possível de conversar nesta praia, neste estado.

Na andada, Marcela me revela outra vontade sua: insatisfeita de somente caminhar pela areia, quer chegar ao mar. Resolvo ceder, mesmo desorientado pelo álcool e pelo pedido. Tiro os tênis, as meias, ela tira as sandálias, e caminha em direção à água.

– Na verdade, eu nunca tinha entrado no mar de Santos. Tô curiosa para saber – diz, enquanto a água começa a molhar seus pés.

– Não perdeu muita coisa, para ser sincero. – respondo, no entanto sem falar sobre objetos e substâncias facilmente encontráveis em nosso mar, como sacolas plásticas, galhos de árvore, água de lastro, entre outras.

Também vou ao mar, acompanhando minha companheira, que olha para o horizonte e me aponta um navio que parte, as luzes acesas. A visão e a água, magicamente, nos tragam um pouco mais, e deixamos molhar um pouco nossas canelas.
Recuo para evitar encharcar a calça, mas Marcela, de vestido, o levanta até as coxas, e fala que vai avançar mais. “Ok, mas cuidado. Vou ficar aqui”, respondo.

A distância entre nós já está a cinco metros, e ela continua andando para o horizonte. Abre os braços, vira a cabeça para o alto. Parece curtir a paisagem, nesta noite fria e escura. Mas a curtição parece arriscada. Deixo os tênis e, com suas sandálias e seu casaco nas mãos, vou para perto dela, me aproximo sem que perceba, e a puxo pela cintura. “Vem, vamos, você vai se molhar toda”, digo, com a voz engrolada.

Nossa caminhada segue, canal a canal, pelas areias da praia. No 3, está a arena dos eventos de verão, montada ali, sem alma viva, para alegrar a turistada durante o dia. “Vamos passar por dentro”, sugere. Pulamos a grade, com inacreditável habilidade, e entramos na arena.

– Ei, o que vocês estão fazendo aí?! – grita um parrudo leão-de-chácara, acompanhando por um colega, lanterna na mão, em nossa direção.

Pulamos a arena novamente, desta vez para o lado de fora, e damos um pique de cinco passos, corridos e descoordenados. “Nossa, de onde surgiram aqueles caras?”, pergunto, na nossa fuga alucinada. “Sei lá!”, ela me responde, mostrando as palmas das mãos.

Um canal e meio adiante, saímos da praia e, três quadras cidade adentro, estamos na porta do prédio onde mora Marcela. Dou a ela, dos meus bolsos, seu cartão, dinheiro, e uma chave. O celular sumiu. “Ah, não é possível”, diz minha amiga. “Peraí, deixa eu ver”, e reviro os bolsos de seu vestido, do casaco, depois meus bolsos. Sem sucesso. A única coisa que descobrimos é que também perdemos as chaves do apartamento. A que dei a ela era somente o molho com a chave da porta do prédio. Por sorte, a colega de quarto está lá, e Marcela consegue entrar no prédio (Só vai precisar de um chaveiro amanhã, porque a porta de seu quarto está trancada).

Nos despedimos com beijo e abraço, e sigo pela Francisco Glicério, desta vez solitário na caminhada. Ainda está escuro, no entanto já se forma a feira, próximo à Ana Costa. Barracas estão sendo montadas, frutas e verduras saem dos caixotes. Estou indo para casa dormir, enquanto Santos acorda no sábado.

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3 Responses to “Banho de mar”

  1. Tive experiências parecidas. Há uma idade em que é imperativo passar por isso – enche o nosso viver.
    Ah sim, também “estive tendo” uma professora gerundiana. – é de amargar. rrsss
    Bem legal o texto.

  2. 2 Larissa Oyadomari

    gostei muito do texto =) experiência na cidade. Essa aqui que vc tinha me contado? Da coletânea, isso mesmo? Sempre bom ler algo seu, beijos

  3. Mto bom, ameeeei! haha E finalmente, senhor Márcio Garoni! Só que não lembro quem era o casal q foi, achei q era só a gente! hehe


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