sobre uma estátua

27fev13

As estátuas querem parecer pessoas vivas, e isso até é normal.

Mas que coisa estranha pessoas vivas querendo parecer estátuas!

Foi agora há pouco, na av. Paulista, que eu vi a mais bela delas.

Ainda se preparava, embranquecendo o rosto, colocando as luvas, para que nenhuma parte da pele ficasse evidente.

Em cima da caixa fez uns gestos suaves, quase indolentes, ao mesmo tempo ternos, para completar o objetivo de ser estátua, totalmente imóvel.

A música já tocava sob seus pés, cobertos pelo tecido branco, como eram brancos rosto e mãos.*

Aproxima-se um garoto, acompanhado da mãe, e o menino para na frente da imóvel estátua. Ela então faz um movimento com os braços, ondulantes e mágicos, e com uma das mãos pega algo que está na bolsa que carrega no outro braço, branca como os tecidos que veste e como o rosto que olha para o menino e traz um sorriso calmo, carinhoso. O menino estende a mão e recebe um presente, que é uma bala ou outra coisa, e a estátua, após uma saudação de reverência e despedida, volta ao seu estado estático.

As pessoas passam, olham para a estátua e continuam suas vidas apressadas, como eu o fiz na primeira vez que passei. Além do menino que parou e do morador de rua, imobilizado com o que via**, só eu tenho o privilégio de contemplar uma imagem tão lírica, preciosa, única, que me envolve e me embriaga numa segunda-feira tão comum como qualquer outra. E me sinto feliz só por poder ter essa experiência.

O som da música baixa repentinamente, e a estátua deixa a imobilidade para subir o volume. Ao descer do pedestal, levanta o vestido branco e aparecem os pés rosados, pequenos e bonitos, que me fazem lembrar que ela não é apenas uma estátua que se move e sorri.

Sorrio, e o mínimo que posso fazer é, da mesma forma anônima e carinhosa, dedicar este texto a você, que fez eu me apaixonar por uma estátua na av. Paulista.

*no original estava: “…cobertos pelo tecido branco, como rosto e mãos.”

**no original: “…imobilizado com aquela imagem…”

25 de fevereiro de 2013 – São Paulo

DSCN3768

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One Response to “sobre uma estátua”

  1. A arte é uma das representações do belo e levá-la para as ruas é algo grandioso.
    Talvez ganhar o dinheiro não seja secundário, e sim a arte, mas ela está lá e é isso que importa.
    Momentos de parar e pensar… pra quê pressa se podemos apreciar o belo?


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