Uma segunda

16abr13

Numa lanchonete na Rego Freitas, enquanto almoço um mistinho e uma esfirra, com suco de laranja, o senhor, que chuto uns cinquenta e poucos anos, ou quarenta e tantos, cabelo grisalho meio comprido, cavanhaque, diz pro garçom já é dia quinze, como o tempo passa, e dá licença você, jovem, desculpa, você sente o tempo passando assim, o einstein dizia que o tempo é relativo, né, acho que quando a gente é novo o tempo não é tão rápido, hoje os dias passam tão depressa, como é?

Eu mesmo não acredito muito nisso, acho que o relógio corre igual pra todo mundo, aliás, acho, acho não, tenho certeza, que o tempo não existe naturalmente, o fato de ele não correr pra trás é a maior prova disso, o que existe de verdade é o espaço, e a gente correndo por ele, pra chegar mais cedo no trabalho, mas nunca chegamos nem atrasados nem adiantados, chegamos exatamente no momento em que chegamos, e questionar isso é a coisa mais estranha que possa imaginar.

Pensei nisso resumidamente, como não quero bagunçar a cabeça do senhor, respondi que ultimamente estou achando que o tempo corria bem depressa sim, e que anos atrás não tinha essa impressão, porque quando a gente é jovem, criança, acho que a gente tinha pressa de conseguir as coisas, de ser adulto, é verdade isso, eu era adolescente e ia escondido nos cinemas pra ver filme adulto, e naquela época era perna da mulher, nada, hoje qualquer um vê pelada, tudo, mas naquela época era uma pressa de ficar grande, e parecia que passava uns catorze anos de tanto tempo, tirar carta, eu tenho vinte e cinco anos e não tirei carta até hoje, eu também não tenho carta até hoje, tinha aquela pressa e passou quanto tempo, tudo isso, e você, vinte e cinco anos, ah, mas é verdade, com essa idade já é outra coisa, aí falei que devia ser que hoje a gente tem muito compromisso, muito mais tarefa, e as coisas acabam sendo mais rápidas por isso, ah, verdade, é muita informação, internet, meio de comunicação, você é daqui de são paulo, não, sou de santos, mas tô morando aqui, ah, tudo cidade grande, é que no interior, antigamente, porque hoje também tem internet essas coisas, o tempo passava bem devagar, então deve ser isso mesmo, é, eu era pequeno passava férias em rio claro, e era bem devagar.

Eu depois que saí da faculdade senti com mais força isso de o tempo passar mais rápido, quando eu era pequeno, sempre fui esperto na escola, comecei a ler umas coisas diferentes, com sete anos tava lendo dostoiévski, essas coisas, colava, sabia colar bem, nunca tive problema, pensava bastante coisa, mas sozinho né, no máximo um ou outro amigo, aí no ginásio, na quarta série do ginásio, tinha uns trezes, catorze anos, quase repeti de ano, porque pensava, pra que tudo isso, que utilidade tem, mas consegui passar, aí eu disse, vou abandonar tudo isso, trabalho com webdesign né, então desde jovem eu fuçava, buscava saber, tudo sozinho, hoje faço serviço, panfleto, faço aqui da lanchonete, é, e não tinha curso naquela época né, não, e tem que ir estudando, não pode parar, quanto tempo passou até hoje, olha, e você trabalha com o que, sou jornalista, ah, jornalista, sim, na tevê brasil, jornalista…, e como é o jornalismo, jornalismo investigativo, ah, tem jornalismo investigativo, mas trabalho em um jornal, tipo jornal nacional, só que diferente, mas parecido, e tem vontade gosta de jornalismo investigativo, sim, gosto bastante, tenho vontade de fazer, olha só esse aqui, é jornalista, jornalismo investigativo é bom né, falou pro garçom, tem o sindicato dos jornalistas aqui, é, eu vim aqui pegar minha carteirinha, que bacana, jornalismo, minha mulher trabalhou na tevê cultura, não é jornalista, mas trabalhou na tevê cultura, é, onde eu trabalho é tipo tevê cultura, jornalista… mas tem coisa no jornalismo, o cara mata, vai lá, fala com o delegado, é não é muito legal, mas jornalismo investigativo é legal, eu gosto, você gosta também né, jornalismo… quantos anos você tem, vinte e cinco, com vinte e cinco anos eu tinha um jornal, mas jornalzinho de bairro, ditadura, com uns amigos, a gente pegava um assunto, e escrevia sobre o assunto, era bem legal, tinha aquelas matérias, e era bem livre né, a gente escolhia o assunto e escrevia o que bem entendesse, mas jornalzinho de bairro, circulava o bairro, spnews, pô, que legal, jornalismo, se eu fosse trabalhar com jornalismo, eu ia, claro, eu ia me capacitar primeiro, mas aí fazer, aquilo, como chama, correspondente, correspondente internacional, um lá, em londres, outro, outro ali, outro, nova iorque, não tenho vontade nenhuma de conhecer, mas, não, é que também a gente já vê tanta coisa, tanta notícia, filme de lá que a gente conhece tudo, é verdade, você falou uma coisa que eu sempre pensei mas nunca disse, tem tanto filme que a gente vê que a gente conhece tudo e nem tem vontade de ir lá, é claro, nova iorque, são francisco, tem aqueles filmes, aqueles filmes, dakota, os bang bang, texas, né, é tem aqueles do texas também, mas que legal, jornalista, então, eu hoje tô assim, hoje por exemplo terminei meu trabalho cedo, sou eu sozinho, já terminei, vim pra cá tomar uma cerveja, aqui, opa, e depois vou pra casa, nada na tevê, facebook nada e vou dormir, deve ser falta de uma coisa diferente né, uma aventura, é, uma surpresa, uma louca aí, arrumar uma briga, haha, uma confusão no bar, hehe, bater, viajar, conhecer outra coisa, apanhar, ou uma louca mesmo, um caso aí, querer ir atrás de mim, briga, aí não né, melhor não, pô, mais legal hein, investe nessa coisa sim, de jornalismo investigativo, vou sim, eu gosto, vai fazer isso que é bem bacana, sim, obrigado, falou, como é seu nome mesmo, Márcio, prazer, eu sou Eduardo, prazer Eduardo, até a próxima. Garçom, me vê a conta, seis reais, toma aqui… aqui, obrigado.

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One Response to “Uma segunda”

  1. Para mim, o tempo passa mais rápido ou não dependendo do ponto de referência.
    Claro que o relógio não anda mais ou menos depressa, mas é a impressão que fica. Quanto mais tempo você tem por aqui, maior é a sua referência e mais depressa ele passa.
    Jornalista: é como jogador de futebol – alguns ganham muito muito, mas a grande maioria ganha muito pouco – acho que é mais uma questão de masoquismo, ideologia.. sei lá.
    Abraço!


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