Coração de Carnaval

06mar14

Botei meu bloco na rua. Meu sangue quente, minha carne de Carnaval. Meu coração igual. Tomei chuva, me queimou o sol. Eu e a multidão, eu nela, euela, indivisível, orgânico, suor, espuma, confetes. Cores, perucas, todo o arco-íris, que a festa é espaço para tudo acontecer. Um Carnaval do samba, do axé, rock-funk-sertanejo-eletrônico, do que se quiser. Um Carnaval de silêncios, só daquilo que se vê, dos olhares, sinais. De palavras, tantas palavras! Marchinhas antigas, marchinhas novas, um choque de felicidade, versões sacanas, que a festa é da carne, a festa é do álcool, da zona, da gente louca, bagunça fechando as ruas, muito barulho. Palavras, palavrões, sussurros. Mensagens na tela do celular, desencontros, reencontros, encontros. Velhos e novos amigos, e não importa, todos são grandes e bons, que só buscam dias de felicidade, cada qual a sua forma, não importam as dores. Mas importam as dores, os dissabores. Desentendimentos, querer o que não se tem, o que se pode mas na verdade não se quer, porque Carnaval é ilusão e depois de amanhã tem a quarta de cinzas, e a rotina volta esmagadora, inevitável. Turbilhão de sentimentos, milhares de tambores, metais e oportunidades, afinal é Carnaval, não me leve a mal. Te quero e não te quero, querer-te é não te querer, então não te quero. Minutos sem resposta, horas, o tempo passa a não existir, só há o espaço, o bloco na rua, andar, andar, o álcool, a massa feliz e eu, quem sou eu? Não sou a multidão, não sou o barulho, sou silêncio, distâncias, atenção, agora perto, tão perto, sou mãos, sou boca e o sentimento do mundo. E o Carnaval é doce, tão doce, e a vida pode ser tudo o que você queria ser, e não há também espaço, só o doce da festa e a música agora indecifrável, porque agora não sou mais somente eu, outra coisa é isso, que os olhos sabem e se fecham para voltar a abrir, as bocas se abrem para aproveitar ansiosamente o que era tão aguardado, e como vale a pena aguardar o que se quer do Carnaval. E nesse intervalo sem tempo e ambiente sem espaço me perco, e nada importa senão saborear o que se guardava da festa, e que se pensava perdido. É no abismo indescritível dess outro ser que me jogo, carnecoração, olhosboca eutu. O melhor do Carnaval, o mais simples e o melhor. Só se é feliz quem se dispõe a se sentir vivo. Mas a vida, ainda mais pra quem busca, também é sofrer. Porque chega a terça de Carnaval, e tudo volta ao que foi outra vez, de forma diferente. As complicações, as coisas de que não abrimos mão de forma alguma, porque cada um é cada um, e ninguém tem o direito de querer que o outro seja menos do que é. Carnaval é amargo também, porque acaba e não poderia ser diferente. O Carnaval acaba, mesmo que a banda ainda toque, que o bloco não disperse, que a cerveja continue gelada. O Carnaval acaba, e pode ser que acabe antes mesmo da quarta-feira. O Carnaval é doce, mas fica amargo e acaba. O Carnaval é amargo e acaba, mas a carne e o coração de Carnaval permanecem ansiando por vida, em busca de possibilidades de felicidade. Vai ter amargor, outras ressacas virão, outros dias de cinzas. Nem o Carnaval é todo doce, muito menos a vida. Danço eu, dança você, e ninguém fica fora dessa roda de samba. Recolhemos os blocos, a música para. Se para, é para recomeçar em outra oportunidade, porque Carnaval é roda, Carnaval é ciclo. É começo e recomeço, ir-e-vir em um mundo que gira, giramos nós, em outros tempos e espaços, quando ambos novamente voltarão a desaparecer. Carnaval, recomeço. Carnaval é recomeço e é sentimento. É o gosto doce e amargo que fica. É o gosto doce que se vai, é o gosto amargo que fica na boca, mãos, olhos, carne e coração.

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