terra que arrebenta

01jul14

pombas e ratos esmagados no asfalto
só consigo distinguir as patas, o couro, penas
são os caminhões do porto dessa cidade que mata
minha cidade que mata
como nas histórias que ouvia, office boy no centro
do conferente esmagado por um contêiner cheio (de café ou soja ou morte)
do estivador morto por umas sacas que lhe caíram na cabeça
(alguma máquina superautomatizada esqueceu que ele estava lá)
gotas de suor e sangue que escorriam desde antes de Neruda e seguem a escorrer na cidade
mortes cada vez mais cruéis
teve aquela outra, do Nando
quando o trem passava no meio do Macuco, uns anos atrás
cortava a Padre Anchieta, a Batista Pereira
cortava a 28 de Setembro e naquele dia cortou o Nando
não devia ter 15 anos quando foi esquartejado pelo trem
na 28 de Setembro com a linha da máquina o trem cortou o Nando e a rotina de todo mundo no Macuco
só um moleque que gostava de surfar
mas não tinha prancha
o Nando, um moleque que surfou na máquina de lata e na linha do trem teve os sonhos retalhados
as partes se separaram para sempre e foram lançadas a metros
ninguém no Macuco fala mais nisso
o trem deixou de passar anos depois
pra liberar o trânsito crescente
acabou o nosso futebol na rua
(os trens agora só matam em Cubatão)
liberou o trânsito para os carros, as motos e os caminhões do porto
talvez para as bicicletas também
como aquela vermelha, de entregar água
em que trabalhava o amigo de um amigo, da minha idade
por um descuido teve a cabeça esmagada pela roda do caminhão que passava ao lado
nunca vou esquecer o corpo coberto desfalecido, os pedaços de massa encefálica no meio da avenida Rodrigues Alves
e o infeliz do policial que levantou o plástico do rosto do rapaz,
e todos vimos a cabeça destampada, as carnes o sangue sobre o cabelo liso
como um palhaço macabro no pior dos pesadelos
que na hora provocou gritos apavorados e o choro compulsivo da namorada de meu amigo
aqui, se não morre do porto, tu sobrevive dele
o meu avô era vigia portuário
um tio-avô, argentino marinheiro
meu pai trabalhou em uma cooperativa de caminhões
um tio é despachante aduaneiro
para ele trabalhei de office boy
(antes, quase fui patrulheiro)
outro tio, caminhoneiro
que o trabalho e o tabaco e o álcool quase lhe amputaram as pernas
tudo isso nesta cidade do porto enorme que tem pressa
pressa de crescer mais, mastigar e engolir a todos nós
como às pombas e aos ratos esmagados no asfalto

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