O meio do fim

08nov16

Desperto do sono e olho o celular. 21:38. Sonhava com música tocando, cinco segundos mais e da janela vem o som: são gritos e bombas. Trinta e um de agosto, uma data pra história, e ela acontece também aqui, doze andares abaixo, em um prédio entre o Minhocão, a Consolação e a São João. Os porcos de farda decidiram mais uma vez o limite da liberdade. Mais tarde saberia que outro ato isolado arrancou o olho de uma estudante. Sobe às narinas o cheiro do lixo no meio da rua incendiado para barrar o avanço das viaturas. Filhos da puta!, alguém grita lá embaixo, pano na cara, disputando o som com as sirenes.

Eu ainda estou meio desorientado, olhos secos, sem palavras, vontade de nada, faminto querendo dormir por um ou dois anos, fraco. Chamo o nome dela, que prepara alguma coisa na cozinha: Vem ver.

Sirenes, gritos e correria. Tão atirando bomba faz tempo, não tinha ouvido?, me pergunta, e balbucio um não sem conseguir olhar nos olhos, rascunho de resposta. Sei que ainda me olha, mas sigo com o rosto virado para a rua. A padaria da esquina baixa as portas, o cara do estacionamento 24 horas contradiz a placa. Ela desiste e vai pegar a câmera profissional que por tantas viagens a acompanhou. Um policial atira uma bomba no meio da rua, quando não há qualquer manifestante, apenas o funcionário do estacionamento e um casal que voltava para casa. Vai se fuder polícia!, o grito me sai da garganta.

Vejo os alertas do celular e respondo que não estou lá, fiquem tranquilos. Lamento não conseguir, faltam pernas, hoje falta tanto. Talvez o melhor mesmo seja estar aqui. Ela tira algumas fotos, pouca ação, e coloca a câmera de volta no armário. Sobe o cheiro do plástico queimado pelos irmãos, e do gás de pimenta dos filhos da puta. Fecho a janela depois de mais um palavrão, porque também a comida está ficando pronta.

Ela traz o nhoque à bolonhesa na panela vermelha, e eu pego a fanta. Me serve no prato transparente, os helicópteros lá fora, ela volta a me observar, enquanto como cabisbaixo. E você, come, mas ela não quer, e eu levanto a cabeça. Vejo o rosto cheio de tudo, a franja desatenta por cima do olho esquerdo, quase sem vida. Sentada com os braços caídos, me fita e volta a vista para o prato vazio.

Paro no terceiro garfo e puxo a cadeira para mais perto. Ninguém sabe direito quem começa, mas um abraço se desenha lento, tímido, pequeno. E ela me faz a última pergunta sem resposta:
A gente vai ficar bem?

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