a tatuagem

23dez16

Daniela estaria diferente naquele segundo encontro: cabelo bem curto, sem as tranças… se ela não tivesse me alertado sobre a mudança no visual, não a reconheceria facilmente ali na catraca do metrô, um sábado à tarde, no centro da cidade. Três meses depois, eu estava muito mais tranquila do que na primeira vez. Nesse intervalo, mesmo sem termos nos visto, ficamos muito à vontade.

O cabelo curto a fazia parecer ainda menor, talvez por isso só a reconheci mesmo quando ela já estava bem perto, vindo diretamente na minha direção. Como ameaçava chover, sugeri irmos direto a meu apartamento, em vez de nos arriscarmos a um banho gelado na rua. Por mim tudo bem, ela respondeu com um sorriso cúmplice.

Poucos dias antes, Daniela havia largado emprego e faculdade, mas apesar dos tempos difíceis, mãe doente, pouca grana, parecia animada. No caminho contamos piadas e demos risadas de alguma grande polêmica da internet. Perto de casa, fomos abordadas por uma travesti que pedia dinheiro, nos chamou de Taís Araújo e Rihanna, o que ajudou a deixar as coisas ainda mais leves.

Compramos vinho num mercado, e chegamos ao apartamento. Em menos de vinte minutos estávamos na cama. Apesar da chuva lá fora, era uma tarde quente de primavera: o quarto fervia com a janela fechada. Foi ainda melhor que da primeira vez.

De volta ao sofá, Daniela contou que havia começado a fazer terapia, e também a frequentar o candomblé. Passava a mão em sua perna. A tatuagem dizia “indomável”, em letra cursiva. Perguntei se era nova, mas não, ela já estava presente em nosso encontro anterior. Mas essa aqui sim, disse, e me virou as costas.

Logo abaixo da nuca, e até o meio da coluna, os traços abstratos lembravam um quadro do Miró, como se reproduzido por uma criança. Passei os dedos pela figura, redesenhando por cima. Aquela moça pequena, aparentemente frágil, a cada momento parecia mais desconhecida. Desde o encontro no metrô me intrigava, como não havia acontecido da outra vez. Quem é Daniela? O que mais ela pode ser?

Isso foi uma piração outro dia, numa festa — ela finalmente falou. A tatuadora estava bem doida, eu também, e decidimos fazer esse desenho. Não tem significado nenhum.

A chuva havia cessado, voltamos ao quarto e abri a janela. O sol reaparecia, e um arco íris fraco dava mais cores ao céu. Ficamos um tempo observando a paisagem. Daniela se vestiu, precisava ir embora. Ela estava serena, sorria como se nos conhecêssemos há anos. Mesmo assim, não consegui captar o que traziam aqueles olhos, a boca, as tatuagens. Abri a porta e nos despedimos. Ela foi embora como uma estranha.

*conto produzido na oficina A Construção do Conto. Agradecimentos a Cadão Volpato pelas orientações

Anúncios


One Response to “a tatuagem”


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: