segunda sonhei que conversava com John Lennon
ele me dava carona num carro velho, aqui no Macuco
do lado direito dele, uma morena
no banco de trás, George Harrison e eu
comecei a cantar uma música, do Paul McCartney
me afobei no refrão e o George me corrigiu
logo depois, estávamos em duas motos
o George e a morena, na frente
e o John me dando carona, atrás
ele falava, e eu tentava ouvir
pensei em perguntar se ele tinha visto algum dos filmes que falavam dele e dos Beatles
e o que tinha achado deles
acabei acordando antes que me respondesse
com um sorriso desperto


vila margarida, são vicente
esperando um busão
que nunca viria

no ponto, um homem com seus 30 e poucos
ex-viciado em crack, com uma mulher
fala que ainda é mal visto
me oferece um gole de fanta
me fala como as pessoas se acham melhores que outras
me fala como já voltou a pé do centro até o samaritá, área continental
outra vez, por sorte
um cara tinha parado de moto, deu carona a ele
era da biqueira do samaritá, disse
onde tem um conjunto chamado de cidade de deus
chega a lotação, e ele vai embora

vou para outro ponto
descem de uma van duas garotas e dois rapazes, uns 16 anos
uma delas, bêbada, quase não fica em pé
tá apertada, liga para a mãe para buscá-la
não devia ter tomado aquela vodca, diz pra amiga
os rapazes riam
e todos saíram caminhando

logo depois
um casal vem brigar do meu lado
o cara diz que a mulher beijou outra pessoa
na boca
foi do lado do rosto, responde ela
pensei ter ouvido que ela beijou uma mulher
não tenho certeza
ela atravessou e foi embora
ele embarcou na lotação que veio

a vida acontece na madrugada

 

Santos, 2 de abril de 2012


“Portanto, há mais aspectos a serem levados em conta em sua postura do que apenas um ávido desejo de serem aceitos num mundo em que eles nunca venceram. Sua verdadeira motivação é uma certeza instintiva de saber a quantas anda o placar. Eles estão fora do jogo e sabem disso. Diferentemente dos rebeldes universitários, que com um mínimo esforço podem sair da luta para o status social, o motoqueiro fora da lei vê o futuro com os olhos malignos de um homem sem a mínima possibilidade de ascensão, de qualquer tipo. Em um mundo cada vez mais adaptado aos especialistas, técnicos e máquinas fantásticas e complicadas, os Hell’s Angels são perdedores óbvios, e isso os chateia. Mas em vez de se submeterem passivamente ao seu destino coletivo, eles o transformaram na base de sua vingança social em tempo integral. Eles não esperam ganhar nada, mas por outro lado, não têm nada a perder.”

Trecho do livro-reportagem “Hell’s Angels” (1966), de Hunter S. Thompson, mestre gonzo


Vi “A Árvore da Vida” sem ler quase nada a respeito do filme e fiquei muito bem impressionado com ele. Não é à toa que, depois de mais uns meses, volto a atualizar esse blogue. Aí vai:

A Árvore da Vida traz para mim uma pergunta muito clara: “Onde (ou em que momento) nasceu o Mal?”. A questão atormenta o personagem principal, cujos momentos da infância voltam à mente, mais de 30 anos depois.

No início do filme há uma frase que diz muito sobre a história que será contada. Com outras palavras, diz-se que a escolha mais importante da vida é o modo como se quer vivê-la: no caminho da natureza ou no caminho da graça. A natureza, segundo narra a mãe dos três filhos (Jessica Chastain), só pensa em si mesma, submete todos a ela, enquanto que a graça é generosa, podendo ser humilhada e desprezada. Essa aparente oposição entre os dois modos de vida é evidenciada no próprio casal: a mãe, terna e compreensiva, é a graça; enquanto Sr. O’Brian, o pai ambicioso e rigoroso (Brad Pitt muito bem), é a natureza. Apesar de simplista, essa dualidade serve para tornar o filme menos hermético.

Porém, afirmo que a oposição natureza/graça é aparente porque o próprio filme derruba essa teoria. Em todos os personagens (como acredito ser na vida), não há a oportunidade de escolha entre um caminho e outro. O filho mais velho (Hunter McCracken), que seria a natureza, odeia o autoritarismo do pai, não suporta a subserviência da mãe, sente um prazer perverso em provocar dor, porém é atormentado pela culpa. Quer viver a graça, mas algo o impede, como uma sensação interior, mais selvagem. A natureza, talvez? Sim, a natureza, mas não como “modo de vida”. Este garoto, nesta fase da vida, é “naturalmente” desta forma. E não se trata de uma escolha, filosoficamente falando. É apenas sua maneira de lidar com as coisas. Não é à toa que, na fase adulta (Sean Penn), não há nenhum aspecto que indique que ele continue sendo uma pessoa perversa, com atração para cometer atos ruins, por mais subjetivo que possa ser o embate bom/mau. Continua sendo uma pessoa atormentada, desta vez pelas lembranças da infância.

Outro motivo por que afirmo que o filme não coloca em conflito natureza e graça é por conta de um fato que gera incompreensão da família: a morte do filho do meio (Laramie Eppler), o mais doce, na Guerra do Vietnã, traz perplexidade aos personagens, cuja educação cristã prega que uma vida de graça traz recompensas, e não punição. O pai, Sr. O’Brian, apesar de não acreditar muito neste princípio religioso, tem claro para si que somos responsáveis por nosso próprio sucesso. Em outras palavras, ele acredita que somos nosso próprio deus, senhores de nosso destino. Uma filosofia de vida que se assemelha muito a Sartre.

Porém, é o próprio Sartre que define o homem como um deus “falhado”, já que, confrontado com a realidade, o destino a que se propõe nunca será plenamente realizado. Como deus de seu próprio destino, o homem fracassa. “Quando nasce, o homem é nada”, escreveu o filósofo existencialista. “Pois tu és pó e ao pó retornarás”, diz o Gêneses. Qualquer caminho (ou filosofia) que possamos escolher, estamos fadados ao nada.

E o Mal?

Retornando à questão que penso nortear o filme, ela fica evidente nas grandiosas imagens que tratam da criação e evolução do Universo. De uma luz inicial vêm as explosões, daí as estrelas e planetas, e num destes, a vida. São imagens que, aliadas à trilha sonora de músicas clássicas, na sala grande do cinema, dão uma dimensão ainda maior ao filme, talvez semelhantes apenas a 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick, e à trilogia Qatsi, de Godfrey Reggio e Philip Glass.

Nesta sequência de imagens, as evoluções chegam aos dinossauros, quando pela primeira vez no Universo aparece algo relacionado ao Mal: há um dinossauro caído num riacho, e outro dinossauro, de espécie diferente, aproxima-se dele. Nisso, o dino caído levanta a cabeça para olhá-lo, ao que o dino que está em pé simplesmente coloca sua pata sobre a cabeça do que está no chão, evitando que o veja. Tira a pata, pisa novamente, e segue seu caminho, sem feri-lo. Não era uma relação entre predador e presa, muito menos de disputa. Terá sido assim, tão simplesmente, que nasceu o Mal? Tão “naturalmente”? É o que diz o filme, sem a menor preocupação em se explicar. O cinema é arte, e como tal não precisa justificar suas escolhas. Assim como a vida.

Onirismo

Outro aspecto que vale a pena destacar no filme é o modo como é montado. As muitas falas em off e a montagem com cenas descontínuas trazem ao filme uma sensação de sonho. Até algumas imagens são oníricas, como a em que a mãe flutua no ar, ou as cenas em que o filho, adulto, está na casa presenciando momentos da família, ocorridos 30 anos antes. As cenas lembram muito alguns filmes de David Lynch, como seus últimos Império dos Sonhos e Cidade dos Sonhos, mas não tão estranhas e incômodas como os filmes de Lynch, que pendem mais para pesadelos.

Comparado aos filmes de David Lynch, A Árvore da Vida não parece ousar muito, e lembra mais alguns filmes de Fellini, como Fellini 8 1/2, principalmente uma das cenas numa paisagem desértica, ampla, na qual ambos os filmes mostram algo como um portal. Em ambos também há a figura do pai, e fica claro que as situações são autobiográficas, duas tentativas dos diretores/autores de um contato com o (ante)passado, concretizada nos filmes. Retomando Sartre, é um projeto de vida que resulta em fracasso (afinal, é apenas ficção), mas que não deixa de ser um produto da liberdade de criação dos artistas, que causa forte impacto emocional em quem se identifica com ele.

A Árvore da Vida não é um filme convencional, porém também não acho um filme difícil. Várias das situações exibidas são universais, e nas quase duas horas e meia de projeção não são poucos os momentos em que nos emocionamos. Como todo projeto de vida, o filme é uma experiência filosófica fracassada. Uma das mais lindas já produzidas nos últimos tempos.


“Mas as encrencas e a dor é que mantêm a gente vivo. Um trabalho de tempo integral. E às vezes nem dormindo dá pra descansar. No meu último sono, eu me via embaixo de um elefante, não podia me mexer e ele soltava um dos maiores cagalhões que eu já vira, já ia cair, e aí meu gato, Hamburger, passou por cima da minha cabeça e eu acordei. Se a gente contar esse sonho a um psiquiatra, ele vai tirar uma conclusão horrível.  Pois se a gente lhe paga os tubos, ele vai dar um jeito para que a gente se sinta mal. Vai dizer à gente que o cagalhão é um pênis e que a gente está ou assustado ou que deseja aquilo, alguma merda deste tipo. O que ele quer dizer é que ele está assustado, ou que ele deseja o pênis. É só um sonho sobre um grande cagalhão de elefante, nada mais. Às vezes as coisas são apenas o que parecem ser, sem nada demais. O melhor intérprete de um sonho é o próprio sonhador. Guarde seu dinheiro no bolso. Ou aposte num bom cavalo.”

Trecho de “Pulp”, último livro de Charles Bukowski – Ed. L&PM – Trad. de Marcos Santarrita




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