Queria

07Jul09

Queria um dia te escrever uma carta. Queria te escrever como tudo aconteceu, desde o primeiro oi até o último tchau. Desde o primeiro tchau até o próximo oi. Mas seria desnecessário, você estava lá também.

Queria te falar como eu me senti naquele dia, quando te disse aquilo, e de como eu recebi sa resposta, tão natural e incrível que até hoje me faz pensar que foi uma armação, inventada por algum cineasta dos anos 60, e tão bem executada por doism amadores. Mas não precisaria, você estava lá.

Queria que você soubesse do tanto de coisas que eu imagino quando você não está perto. Aliás, quando você não está perto, parece que tudo acontece. As horas correm, nuvens chovem, as rádios tocam toda a programação. Palavras inúteis, o mesmo acontece contigo.

Te contaria até que, por sua culpa, há momentos em que eu tenho certeza de que sou o homem mais feliz do mundo, depois de das ou três palavras suas. E que, na mesma intensidade, me sinto o mais infeliz, por não poder te ter do jeito que bem queria. Mas você bem sabe disso.

Na verdade, só quero te olhar no olho e te dizer.

Só quero te olhar no olho, e não dizer.

queria


Déjà vu

21Jun09

Deja vu

- Mais alguma coisa?

Se não fosse pela pergunta, eu não perceberia que tinha mudado a mulher que empacotava o pão. Também, com aquele avental bege e touca na mesma cor, qualquer mulher pareceria a mesma. E do jeito que sou atento, às vezes não diferencio nem Pelé de Xuxa. Mas a mulher da padaria era outra mesmo, e só reparei quando ela perguntou se eu queria mais alguma coisa.

- Han? Ah, não. Obrigado.

- Obrigada.

Paguei pelos pães no caixa, e na volta para casa, fiquei pensando naquela frase. “Mais alguma coisa?”, sussurrei sozinho. Raha, querer eu quero, meu bem.

*

No outro dia, trabalho. Centro da cidade. Caminhava pelas ruas, e sentia que faltava mais alguma coisa. Vi uma porta aberta num casarão em pedaços, apareceu uma perna. Diminuí o passo, estiquei o pescoço. Outra perna. Um braço. Um corpo. Meio rosto. Uma boca:

- Vem cá, vem! – e um dedo me chamando.

Cabelos loiros, olhos azuis, extremamente maquiada. Teria o quê, uns 25 anos? Passei meio assustado, sem dizer nada. Desesseis anos, ainda inocente, e o pior, sem um puto no bolso. Fui embora. Como ela, precisava ganhar o dia.

*

À noite, fiz questão de comprar o pão novamente. A mesma moça nova. Vinte e poucos anos, olhos azuis, boca… cacete! Parecia ela! Pedi os pães, me deu:

- Mais alguma coisa?

- Não… quer dizer, sim. Qual seu nome? – perguntei.

- Lúcia. – disse, e sorriu quase que ao mesmo tempo.

Devolvi o sorriso, e agradeci. Lúcia, a moça do pão. A moça que oferece mais alguma coisa. A moça que tem duas vidas.

*

No trabalho, dia seguinte, aproveitei a hora do almoço para refazer a caminhada pelo centro. Naquela mesma porta, a mesma perna. Era ela.

- Vem cá, lindo, vem cá!

Passei. Será que é ela? Voltei, com uma coragem tirada não sei de onde.

- Voltei. –  e fiquei olhando bem para aquele rosto cheio de pó.

- Olá, moço. qual sua idade?

- Dezoito. – menti. Aqueles olhos, cabelos, boca, eram mesmo familiares. Mas um pouco diferentes. Decidi arriscar:

- Qual seu nome?

- Luciana.

- Ahnn.

- Por quê? Mais alguma coisa?

Conferi o bolso de trás, tudo ok. Entrei e subimos as escadas

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1 – Lendo Bukowski – Numa Fria. Deu pra perceber?

2 – Ressuscitando o blogue, para a alegria de vocês três. E a foto é minha.

3 – Tuítem-me

4 – Rafinha Bastos zoou meu jornal. Mas fui tirar satisfações.

4 – Agora eu sou jornalista! Eu e você! A melhor tira sobre o fim da exigência do diproma aqui, por Gustavo Delacorte.

5 – O Curta da Semana tem tudo a ver com o conto ;)

6 – Minha estreia na dramaturgia, como personagem principal. De 2006.


Seria foda.


Tudo errado

13Mai09

Acordo com o despertador que já tocou pela terceira vez. Na primeira, nem ouvi; na segunda, não tinha acordado direito. Tive até um sonho interessante, mas foi interrompido quando acordei. Mas não importa, já que nem lebro mais o que sonhava.

Vou para o banho, e me seco com uma toalha que está meio úmida. Escovo os dentes na pia, e tento fechar a torneira, mas ela não fecha bem, e fica escorrendo água.

Começo a me vestir pela calça, aquela rasgada na perna e com um furo no bolso esquerdo. Aperto bem o cinto, mesmo sabendo que é inútil, porque a calça sempre afrouxa, e o dia inteiro eu fico puxando. Magia parecida acontece com o tênis que acabo de calçar: uma hora ou outra, um dos pés tem o cadarço desamarrado. Preguiçoso, sempre coloco para dentro do tênis, e só vou amarrar quando não tenho onde colocar as mãos.

Pego o ônibus, tiro do bolso a carteira que não fecha mais, já que perdeu o botão, de tão velha que está. Me sento e vou abrir a mochila -que tem um rasgo bem na frente do zíper- , de onde tiro o livro surrado que estou lendo há mais de um mês, mas fico uns dias sem ler e perco o fio da meada, o que me obriga a sempre voltar algumas páginas. Às vezes eu acho que vou ter 83 anos, ainda no meio desse livro. Às vezes eu acho que tenho 83 anos. Desisto e ponho o fone de ouvido, que tem falhado bastante ultimamente.

No trabalho, o computador não está 100%. A internet tem caído. Sou mal-interpretado pelos colegas. Esqueço que é meu dia de tirar o lixo. Na faculdade, lembro tarde demais que precisava entregar um trabalho, e mais uma vez deixo o meu grupo na mão. Uma amiga, com toda a razão, reclama que a gente não tem mais se falado. Ninguém mais entende a minha piada. Um professor reclama do meu atraso.

Na vota, perco o ônibus, e caminho mais uns 300 metros até outro ponto, onde espero mais uns belos 20 minutos. Pego o ônibus para casa, pensando nos próximos compromissos, sabendo quer só vou cumprir parte deles, ou todos eles em parte.

Tento parar para escrever o que sinto, e o produto final é um esboço do que nunca quis fazer.

É assim que, meio errado, vou vivendo.

É só.

 

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Muito tempo sem postar, né. Vocês três tiveram que arrumar outras coisas para fazer. Três dicas:

- (no subject), da Nágila, minha mais nova amiga de infância;

- textdriver, do Gustavo, amigo já de algum tempo;

- El-ritepramim, da Ellen, que já deu uma de estrela e exigiu que entrasse na categoria dos profissas.

De resto… bem, o resto é resto.


Bem assim mesmo

- Desculpa, mas é assim que eu sou. Serve pra você?

Ali se acabavam as brincadeiras. Tudo o que poderiam dizer de inofensivo teve fim. Dali em diante, qualquer pensamento, intenção, gesto, palavra e atitude passariam a ter outro significado, que só os dois conheceriam.

Conheceriam? Ainda tinham dúvidas, mesmo com a convicção que ele mostrava na pergunta, e ela no sim (palavra que ficaria econando em suas cabeças por muito tempo. Precisariam se conhecer mais, apareceriam as diferenças, mas estavam preparados para tudo, apesar das incertezas que ainda temiam mostrar um ao outro.

Fizeram-se mil promessas, sabendo que só poderiam cumprir metade, se muito. A graça estava quase que somente nas palavras que trocavam. O bom da vida é viver, ele ou ela teria dito. E o universo já não era suficiente para guardar o mundo que havia sido criado entre eles.

Queriam recusar a toda liberdade. Tinham seus compromissos, seus inúmeros horários e datas na agenda, mas ainda assim eram os seres mais livres de que se havia notícia.

Despediram-se com um até logo.